Não conheci nenhuma cidade mais linda do que Paris. Esta sentença vale para o quesito "do nada surgiu um lugar lindo pela mão do homem". A capital francesa não tem mar ou montanha, a natureza não lhe foi especialmente generosa, à exceção do rio Sena correndo pela cidade. Ainda assim, o que deixa a paisagem mais bela é o entorno, os espaços públicos criados para que parisienses e turistas se deixem ficar nas margens do Sena. A avenida que liga o Louvre ao Arco do Triunfo é toda ladeada por árvores e prédios maravilhosos. A Torre Eiffel é mão do homem em estado puro. Paris é tão fantasticamente bela, que mesmo o horror nazista desistiu de destruí-la quando da invasão alemã na Segunda Guerra. Antes, tiveram o sonho inútil de desfrutá-la como donos.
Na contramão da espetacular Paris e sua beleza europeia que remonta a tempos d'antanho, Dubai. Cidade que transpira futuro, prédios que chamam a atenção pelo excêntrico, não exatamente pela boniteza. Há um hotel feito com tanta tecnologia e design tão futurista, que se cobra ingresso para chegar perto e tirar foto. Ao lado, Abu Dhabi é uma joia árabe que traz avenidas larguíssimas, arborizadas e irrepreensivelmente limpas. Sobem prédios para todos os lados, a preocupação de quem constroi é seduzir turistas milionários do mundo inteiro na ideia de que estão em 2050. Do alto, quando se chega, só se vê areia, deserto para todos os quadrantes. Então, surgem duas cidades erguidas pela força do dinheiro onde se compra tudo que dinheiro pode comprar.
Vi Nova York ainda com Torres Gêmeas e sob a rédea curta do melhor prefeito da história da cidade. Rudolph Giuliani instaurou segurança no caos, NY vicejou como flor em primavera. Seus edifícios com escadinhas à vista, seu megaparque verde e sua pluralidade étnica a fazem especial. Gostei ainda mais da metrópole norte-americana por conta da Estátua da Liberdade. Sou estatuteiro de carteirinha. Peguei a barca, fui até lá, tirei foto, turistei legal. É onde mais tive a sensação de que tudo e qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. O que, aliás, revelou-se tragicamente real no início deste século.
No afetivo dos meus olhos, Rio de Janeiro. Capital do Mundo, parafraseando o encantamento sentido por Paulo Roberto Falcão com a Porto Alegre que ele adotou desde sempre. No Rio, a mão do homem se preocupou em não desfazer o que a Natureza oferecia de pronto e adicionar cerejas ao bolo. Assim é o Cristo Redentor, também o Pão de Açúcar. A arquitetura belíssima de bairros como Flamengo e Catete, a baía de Guanabara para contemplar, Copacabana para admirar e uma vocação hedonista indesmanchável. O Rio de Janeiro remete a prazer. Cidade que goza.
Porto Alegre é a cidade em que nasci e de onde provém todos os cheiros, os sons e as imagens que ocupam aquela zona do cérebro onde nada se esquece. Meu trabalho já me levou a Seul, Tóquio, Frankfurt, Berlim, Munique e outras menos votadas, mas não as coloco numa lista de lugares do meu afeto. Em Porto Alegre, não temos natureza exuberante, o que não nos impede de admirarmos apaixonadamente o pôr-do-sol que derrama seu laranja pelas águas do rio que virou lago e nunca deixar de ser rio. Conheço-a como nativo, ainda assim desconheço infinitas ruas de uma Porto Alegre que pouco frequento. Sei quase nada de Zona Norte, sou doutor em Zona Sul, fiz mestrado no Centro tão relegado e tão potencialmente rico para ver e frequentar. Apaixonei-me pela Duque de Caxias onde vivi 18 anos, enamorei-me pela Fernando Machado e seu arvoredo durante outros dois anos e voltei para o sul como viajante cansado. Gosto de Porto Alegre. É bom voltar de qualquer outro lugar lugar e ver em ruas e prédios belezas que só o afeto permite, uma vez que a estética não recomendaria nada especial.
Cidades.
