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Ainda o episódio do confronto na UFSC

07 de abril de 2014 6

Famílias e profissionais ligados ao Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI) da UFSC publicaram nesta quarta-feira, 2 de abril, uma nota de repúdio à violência da ação policial ocorrida na semana passada na Universidade. A nota explica em linhas gerais como a comunidade do NDI testemunhou a ação. O gás lacrimogêneo foi sentido nos pátios e até na sala dos bebês, mesmo com as janelas fechadas.

Na tarde de 25 de março, havia 111 crianças no NDI. A diretora, Marilene Raupp, conta que ficou sabendo da operação por acaso, quando telefonou para o diretor da Diretoria de Segurança da UFSC (Deseg), Leandro Luiz de Oliveira, para tratar da instalação de câmeras de vigilância. Era por volta de 15h. Leandro afirmou que estava acompanhando uma situação tensa no bosque. Foi quando Marilene olhou pela janela e já viu as luzes dos carros policiais estacionados na proximidade. Ao mesmo tempo começava a operação para encaminhar rapidamente todas as crianças que estavam no pátio em direção às salas de aula.

Naquele momento Marilene descobriu que um grupo de 20 crianças, com idades de zero a três anos, havia saído do NDI para fazer um passeio. Elas tinham ido ao Horto Botânico, que fica na direção oposta ao bosque. Ao serem alertadas da operação policial, as quatro professoras começaram a retornar com as 20 crianças, apoiadas pela vigilante que trabalha no CFH. Todas entraram em segurança pelo portão alternativo, que fica do lado de trás. Este retorno levou cerca de 30 minutos.

Momento do confronto

Eram aproximadamente 17h30min quando começaram as bombas, o gás lacrimogêneo e o barulho forte. Dentro das salas fechadas e com ar condicionado ligado, as professoras tentavam realizar suas atividades normalmente. “Em uma das turmas, alguns alunos de 4 a 5 anos já percebiam que algo estava acontecendo e que envolvia policiais. A professora então propôs que brincassem de ninja, e todas as crianças colocaram a camiseta na cabeça para brincar. Foi um encaminhamento pedagógico lúdico, para não ficar em desespero”, relata a diretora.

Os pais começaram a chegar apreensivos, muitos deles sentindo os efeitos do gás lacrimogêneo. A instrução era que entrassem e levassem embora rapidamente suas crianças, utilizando a saída de trás. Quando a multidão e a polícia, em conflito, começaram a descer pela rua em frente ao NDI, funcionários da Deseg pediram para que todas as famílias permanecessem no Núcleo até que a situação voltasse ao normal.

Flor do campus

No Centro de Educação Infantil Flor do Campus, que fica ao lado do NDI, a situação estava sendo monitorada desde as 14h, quando profissionais da creche e familiares perceberam a movimentação de carros da polícia na rua de acesso ao bosque. No Flor do Campus estudam 76 crianças, nos turnos matutino e vespertino. Naquela tarde havia 20 crianças. Ao perguntar a um policial militar sobre o motivo da presença deles no campus, uma das coordenadoras da creche foi informada de que havia uma manifestação e que eles estavam lá para acompanhar. A partir daí as crianças foram todas retiradas da área externa e ficaram o dia inteiro sem poder usar o parque. De tempos em tempos, a coordenadora ia verificar com um policial sobre a ação.

Às 17h20min, ela foi alertada por um policial para que todos fossem a uma sala protegida, e que fechassem as janelas, pois ia começar a chegar o cheiro de gás. Também foi instruída a não deixar os pais saírem naquele momento com as crianças. Dez minutos depois, começaram a ouvir o barulho dos tiros. Dentro da sala, uma das professoras começou a contar histórias. Depois, como o barulho externo ia aumentando, ela resolveu mudar de atividade, passando a tocar um tambor. Os pais iam chegando e esperando junto ao grupo. Alguns estavam com os olhos vermelhos e lacrimejantes. A maioria só saiu com seus filhos quando a situação no local estava mais calma.

Consequências

De acordo com a nota do NDI, naquela semana algumas crianças apresentaram problema de saúde, como diarreia e vômitos. As famílias e os profissionais da escola não sabem se o fato pode estar relacionado com o gás lacrimogênio. Já no Flor do Campus não houve relato de problema de saúde.

Depois do conflito, as crianças do NDI ou do Flor do Campus não voltaram mais ao bosque. Ao longo dos anos o local tem sido muito utilizado para pic-nics, aulas de educação física e outras atividades lúdicas. No Flor do Campus as saídas são precedidas por uma vistoria do local a ser visitado. Uma das professoras relata que, há alguns anos, os passeios no bosque eram feitos em áreas mais distantes da creche, mas há pelo menos quatro anos, as saídas são sempre em locais próximos, de onde as crianças podem ser observadas por outros funcionários a partir da escola.

“O bosque é um espaço precioso para as crianças. Lá as professoras fazem a atividade do lobo, da bruxa. O professor de educação física faz tirolesa, tobogã com papelão e as crianças se divertem muito”, explica Marilene Raupp. No entanto, há vários anos, para levar suas turmas, as professoras do NDI sempre pedem ajuda à Deseg, que vai antes para verificar se a área está segura e fica acompanhando à distância até a atividade terminar. “Não deveria ter isso, não é o ideal. O bom seria usar o bosque sem precisar chamar a Segurança, mas é a forma de não privá-las deste espaço lindo”,  afirma Marilene. Além da nota pública, outra providência do colegiado do NDI será comunicar o fato a uma série de entidades relacionadas à segurança e à infância em Santa Catarina e no Brasil.

Protetores

No NDI, a ação de proteção das crianças foi coordenada em grande parte pela vigilante da empresa Kronos, Alessandra Mara de Queiroz. No início da tarde, ela acompanhou o movimento dos carros da polícia e já comunicou à diretora que não deixasse as crianças nos pátios. Também deu as instruções para que fechassem as janelas das salas. “Era mais uma medida de precaução, que aprendemos nos nossos treinamentos. Naquela hora eu não imaginava que pudessem usar gás lacrimogêneo”, explica.

Durante todo o conflito, Alessandra ficou na guarita do NDI, junto com o fiscal Márcio Aloncio da Silva e os vigilantes Daiane Vieira e Luiz Claudio de Oliveira. De lá eles se mantiveram em contato com a Deseg e com a Kronos, que os colocavam a par da situação e transmitiam as instruções. Na guarita, todos sentiram por alguns momentos os efeitos do gás. Uma preocupação era controlar a entrada do NDI: ao mesmo tempo em que os pais estavam chegando, alguns estudantes que estavam sendo atacados pela polícia tentavam entrar, em busca de proteção.

“A Alessandra teve muita iniciativa, tomou as providências necessárias para garantir a segurança de todos do NDI, acionou seus colegas para que a ajudassem e transmitiu tranquilidade aos pais que chegavam preocupados. O trabalho da Alessandra e da Deseg foi perfeito nesta situação”, afirma a professora Marilene. Alessandra é mãe de uma menina de 2 anos e meio. “Eu sabia o que os pais estavam sentindo naquele momento. Graças a Deus acabou tudo bem. Foi a primeira vez que passei por uma situação dessas e, quando terminou, nosso sentimento foi de paz”, afirma Alessandra.

comentários

Comentários (6)

  • rogério cardozo diz: 7 de abril de 2014

    Na USP ou UNB ( não lembro) durante ditadura ocorreu um negocio desses acho as câmeras são um atrativo para todo mundo que quer aparecer faça seu show , para mim todos estavam errados e show com violência generalizado não deve ganhar aplausos e sim criticas , abaixo a baixaria.
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  • E digo mais..!!! diz: 8 de abril de 2014

    Ah… deixa eu ver se entendi:
    A direção da escola está apoiando a reitora da UFSC… por motivos óbvios.
    A escola está preocupada com os alunos, que são crianças, perfeito.
    A polícia federal foi intransigente? Há controvérsias.
    Resultado:

    E DIGO MAIS: Então a preocupação da direção da escola-NDI é que as crianças estiveram expostas ao gás lacrimogêneo em um dia, num episódio esporádico… mas não estão preocupadas com a fumaça da maconha e com os traficantes que rondam a escola diariamente?
    DIRETORIA DO NDI, PEDE PRA SAIR DURANTE A COPA DO MUNDO QUE NINGUÉM VAI REPARAR….

  • Mark Richards diz: 8 de abril de 2014

    Se estudantes e professores não tivessem tentado usar a força para impedir o trabalho da polícia nada disso teria acontecido.
    A culpa não é da polícia: é de quem praticou os crimes de resistência, desacato e favorecimento pessoal ,todos tipificados no Código Penal.

  • Roberto diz: 8 de abril de 2014

    Rafael, meu caro.

    E o cheiro da fumaça do bagulho, as crianças já estão acostumadas? responda Srª. Diretora e após, pede para sair, aproveitando a Copa, como já sugerido.

  • ml madruga diz: 8 de abril de 2014

    É pessoal, realmente os cidadães de bem e pagadores, através dos impostos, das estruturas inchadas de aproveitadores e oportunistas, precisa ser repensada, pois uma declaração como essa do NDI e o abaixo assinado em prol da “reitora” por pouco menos de 30 professores dos mais de 2000 existentes na UFSC, demonstra claramente mais uma estratégia despreparada de defender a mau assessorada e despreparada “reitora”. Não vamos jogar a toalha, precisamos urgentemente de uma CPI e quem sabe uma intervenção na UFSC, pois temos greve dos servidores, obras paradas e nada de ação para fazer a UFSC funcionar, são 40.000 alunos, a maioria esmagadora preocupada com o futuro, querem estudar. Quem sabe aquele aluno que fez o calculo do custo da operação da PF, pudesse fazer os cálculos de quanto está custando para nós a manutenção dos problemas e da atual direção UFSC.
    Continuo defendendo aquele abraço na UFSC, onde os cidadães fiquem de costa para a mesma, pois é isso que a UFSC esta fazendo para os cidadães brasileiros, pagadores de impostos, de bem.

  • Milly diz: 9 de abril de 2014

    É uma nota pueril do NDI. Não gostaria de ler, em qualquer jornal do país, uma criança tenha sido estuprada, em ambas escolas, federais da UFSC!

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