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O dia em que o presidente da República esteve na minha casa

14 de julho de 2015 0

Antes que você decida, por acaso, perder alguns minutos do seu precioso tempo com a leitura deste texto, um alerta: trata-se apenas do relato de uma cobertura jornalística, sem prós ou contras aos personagens nele envolvidos. Se quiser criticar, à vontade, mas só depois de chegar até o fim. E sem xingar, por favor. Vamos lá:

Lembro dos detalhes como se fosse ontem, estilo narração online minuto a minuto daquele 3 de dezembro de 2004.
A cada agenda de visita da Presidência da República ao Estado, como a de Dilma Rousseff amanhã, o burburinho na redação fica diferente. Preparativos com credenciamento, quem vai cobrir o que e coisa tal. Naquela data não foi diferente. O então presidente Lula viria ao Estado para assinatura da ordem de serviço para início da duplicação do trecho sul da BR-101, uma demanda tão emblemática quanto a ponte Anita Garibaldi, com a diferença que a última já está conclusa, enquanto a outra. Bom, mas falar de obra pública inacabada rende um capítulo à parte.

Dias antes, uma força-tarefa com quatro fotógrafos, seis repórteres e editores foi mobilizada no Diário Catarinense. A ideia era não deixar escapar um detalhe sequer. Não dá para tomar furo no seu quintal. Ao menos era o que se pensava na época. Um único detalhe me intrigava naqueles preparativos. O neto de Lula, João Gabriel, filho de Lurian, era então um recém-nascido. E a família morava no bairro Abraão, região continental de Florianópolis. Por uma dessas coincidências da vida, no mesmo condomínio classe média em que este colunista vive até hoje. Éramos vizinhos de blocos, ambos no mesmo andar, a pouco mais de 50 metros de distância entre a janela de um apartamento e outro.

A segurança da família era realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Dia e noite, noite e dia, pelo menos quatro agentes federais (todos militares) se revezavam na guarda da filha, do genro e dos dois netos de Lula. A base deles ficava, inclusive, a poucos metros do antigo prédio do DC, no bairro Itaguaçu.

Foi aí que bateu o tino de repórter. Pensei: se o Lula vem a Santa Catarina e vai passar por Florianópolis, está aí a chance dele conhecer o netinho. Liguei para o cerimonial do Estado para checar se haveria uma janela na agenda para o encontro. Nada. E o presidente da República ir até o bairro Abraão seria impossível. Quem já viu uma comitiva sabe do que estou falando. Parece um circo por conta do aparato com helicóptero, vários carros e coisa e tal. Enfim, sem chance.

Mas foi aí que a sorte sorriu novamente. Três dias antes da data prevista, começou uma movimentação diferente no condomínio. Vi pelo menos outros dois agentes vistoriando muros e fazendo fotos. Então era isso: Lula iria visitar o netinho. Se os caras não davam nem bom dia, imagina confirmar uma informação dessas. Mas quem tem amigo porteiro, tem tudo na vida. Foi só interfonar para o seu Geraldo, um pernambucano gente-boa que só. Ele estava proibido de falar, mas como esconder o segredo de um amigo? Batata: confirmou que o presidente viria até o condomínio. Faltavam dois dias. Foi então que começou a se desenhar um plano. Óbvio que a imprensa não poderia acompanhar a visita ao neto, mas também ninguém poderia impedir um vizinho de assistir a tudo de camarote, dentro da sua própria casa, mesmo que seja um repórter, certo? Claro!!!

Faltava, então, o fotógrafo. Como já estavam todos envolvidos nas demais pautas, o jeito foi chamar um, mesmo fora de combate (tornozelo engessado). Ah, se o RH soubesse nos matava. No dia 2 de dezembro, véspera da visita, o policiamento praticamente dobrou no bairro (pena que não é sempre assim). Acertamos que o Koldeway (fotógrafo) dormiria na minha casa, porque no dia seguinte certamente a área seria isolada. Dito e feito. As horas se arrastaram naquele 3 de dezembro. Nosso combinado era ficar na sacada acompanhando a movimentação no hall de entrada, pois não poderiam nos questionar. De repente, por volta das 15h, um helicóptero militar começa a sobrevoar o condomínio. E vejo ao longe, lá na portaria, uma correria. Lula estava chegando.

Foto: Koldeway AC

Foto: Koldeway AC

A certeza de poder chegar a poucos metros do presidente para uma entrevista fez nosso plano virar fumaça em segundos. Decidimos descer e ver o que acontecia. Como era no meio da tarde, em plena sexta-feira, e ninguém sabia da vista, poucas pessoas se aglomeraram para ver aquela fila de carros pretos todos com vidros escuros. Lula desembarcou a cerca de 20 passos de onde eu estava. Perguntei sobre o Corinthians e ele já veio em minha direção. Sem me perguntar quem era (e eu sem me identificar), Lula me pegou pelo braço e foi caminhando em direção à entrada do bloco. Durante cerca de cinco minutos, com os seguranças apenas observando, falamos sobre futebol, política e economia. Ele então se despediu com um abraço e entrou. Só então um assessor veio me questionar se eu era jornalista e o que fazia ali.
Respondi:
- Sim, sou repórter.
- Mas você não pode ficar aqui, isto é área de segurança nacional.
- Desculpe, aqui é a minha casa, moro no apartamento tal e daqui não saio.
- Ok, mas não se aproxime mais do presidente.
- Tudo bem.

A entrevista exclusiva já estava na mão.

Com o coração na boca, peguei o fotógrafo, que mesmo manco fez estes registros exclusivos, e nos afastamos. Lula demorou cerca de uma hora na casa de Lurian. Dois armários 4×4 com cara nada simpática, de óculos escuros e escuta no ouvido colaram na gente a cada movimento.

Foto: Koldeway AC

Foto: Koldeway AC

Foi quando avistamos, do lado de fora do muro do condomínio, vários fotógrafos tentando registrar a imagem de Lula com o neto. Atendendo aos pedidos, ele posou com João Gabriel na janela. E eu voltei para a redação pulando feito pipoca por ter conseguido uma entrevista com um presidente da República no hall de entrada do meu apartamento (veja reprodução da capa do DC). Essa, tenho certeza, jamais se repetirá. Moral da história: com persistência e um pouquinho de sorte, dá para para fazer diferente. Em tudo!

Aliás
Sabe quais eram as principais manchetes dos jornais na época: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o PSDB chamando o governo Lula de incompetente. O PT e demais partidos da base já envolvidos nas primeiras denúncias do famoso Mensalão e o presidente dizendo que não sabia de nada. Qualquer semelhança com os dias de hoje, 11 anos depois, não é mera coincidência.

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