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Mais de 100 anos de história no coração de Florianópolis

05 de outubro de 2014 0

 

Asilo Irmão Joaquim

Asilo Irmão Joaquim

O prédio histórico do Asilo Irmão Joaquim está localizado na Avenida Mauro Ramos, uma das mais movimentadas de Florianópolis. É barulho de automóveis e ônibus dia e noite. Mas quando ele foi construído _ a 104 anos atrás _ a cidade era bem diferente. Na rua de chão batido só passavam veículos puxados a cavalos e bois. Depois, surgiu o primeiro transporte coletivo: bondinhos sobre trilhos puxados por burro. Havia duas linhas, uma delas passava justamente em frente ao asilo. Uma alegria para os idosos internos, que se distraiam olhando o movimento e conversando com quem passava na rua.

Os tempos mudaram, os internos também, mas o casarão de paredes grossas e janelas enormes continua firme e majestoso. Abriga 40 idosos, 20 de cada sexo, e, segundo o voluntário Vitor Warken Filho, há uma fila de espera de mais de 100 pessoas. O asilo é mantido pela Associação Irmão Joaquim, criada no século 19 por católicos da Catedral Metropolitana e por maçons, para cuidar dos pedintes que circulavam pela cidade e moravam sob pontes ou no interior de casas em ruínas. A construção fazia parte de um processo de modernização e higienização que a cidade viveu nas duas primeiras décadas do século 20, época em que a água potável foi encanada e construídas as redes de esgoto e de energia elétrica.
Ainda hoje o asilo é mantido pela Associação Irmão Joaquim, e sobrevive basicamente de doações, praticamente sem ajuda do Estado. Um grupo de voluntárias promove eventos para arrecadar recursos. As despesas são grandes, pois a instituição abriga principalmente idosos carentes, e precisa manter, em seus quadros, enfermeiros, nutricionista, fisioterapeuta, graduado em serviço social e cozinheiros, além de auxiliares gerais. Um dentista e um médico atendem de forma voluntária.

Vitor Warken Filho é engenheiro aposentado. Foi diretor financeiro da Associação Irmão Joaquim, e depois secretário geral. Hoje, permanece na casa como voluntário.

_ Não consigo ficar longe destes velhinhos. Eles são minha segunda família _, conta, emocionado.

O problema, diz ele, é que a ajuda para manter a entidade é cada vez menor. _ Florianópolis cresceu muito, tem milhares de pessoas de fora, que não conhecem o asilo e sua importância para a cidade e, por isso, não nos ajudam a mantê-lo _ acredita. Outro problema é que os voluntários estão envelhecendo e quase não há renovação. Por isto, ele convida quem quiser conhecer o asilo, passar numa tarde com os idosos, cantar com eles, contar histórias, fazer companhia. Na verdade, o que ele mais necessitam é de atenção e carinho. E isso todo mundo pode dar, é só querer.

 “A saudade é tanta que dói”

“A vida é boa,  minha filha. Boa e linda. A gente é que torna tudo mais complicado e difícil. O ser humano é assim. Não posso me queixar da vida que tive nem da que tenho hoje. Com 101 anos, viver do jeito que vivo, com saúde, sem doença nenhuma, só tenho que ficar feliz e agradecer.”

Mário Machado repetiu esta frase várias vezes durante nossa conversa, como se fosse um mantra. “A vida é linda…”,  “a vida é linda…”. E seus olhos, atentos e curiosos, ficavam cheios de lágrimas cada vez que lembrava o passado. São muitas as recordações, porém a que mais lhe emociona é a saudade dos 15 irmãos. Todos já se foram. Só sobrou ele. “Parece mentira, mas sou o último vivo de toda a minha grande família. Alguns irmãos tornaram-se médicos, outros advogados, e um deles, Fernando Machado, foi prefeito da Capital.

Florianópolis ainda se chamava Desterro quando Mário nasceu, no final de setembro de 1913, em uma tradicional família da sociedade. Ávido por aventuras e apaixonado pelo mar, decidiu ingressar na Marinha Mercante como radiotelegrafista, assim que completou 18 anos.  Por muitos tempo trabalhou embarcado, em navios que percorriam toda a costa brasileira. Queria ir ainda mais longe, morar no Exterior. Mas atendeu um pedido do pai, que pediu para que ficasse no Brasil. Ele tinha medo de que o filho morresse longe de casa.

Como marinheiro, Mário não fugia à regra: mantinha  um namorada em cada porto. “Mas não era como agora. A gente respeitava as moças”, garante. Tanto respeito, porém, não lhe poupou de um grande desgosto. A moça que amava e com quem pretendia se casar “ficou de gracejos” com outro marinheiro, enquanto ele estava viajando. Foi o que bastou para desmanchar o compromisso. “Não foi por ciúme que terminei o namoro. Foi por falta de lealdade da parte dela”, explicou. Pouco depois conheceu Virgina Bianchini, com quem casou e viveu por 68 anos, até a morte dela.

A família de Mário era proprietária da mais importante loja de departamentos da cidade, a  Machado & Cia, onde ele também foi trabalhar depois que casou e largou a Marinha. Só saiu de lá para a aposentadoria, nos anos 70, quando o comércio fechou suas portas. Mário tinha muito tino para negócios, e chegou a ser dono de 22 imóveis na cidade.

Há muitos anos ele mora no Asilo São Joaquim, por contingências da vida que prefere não comentar para não ficar triste _ o que não combina com seu temperamento. Recebe muitas visitas, tem muitos sobrinhos e é querido por todos. Uma prova disso foi o dia do aniversário de 101 anos. “Tinha tanta gente aqui que eu nem conhecia todos. Mas foi uma festa muito bonita”, conta.

Vaidoso, Mário nunca se separa de seus dois grandes companheiros: o chapéu claro tipo panamá e a bengala. “A minha perna está um pouco fraca. Não sei o que é isto, pode ser que a idade esteja chegando”, diz, e solta uma risada gostosa.

A despedida é melancólica. Ele me pede para voltar outro dia.

_Vem conversar, minha filha. Tenho tanta coisa ainda pra te contar.

Prometo que volto. Ele levanta e segue para o refeitório, apoiando-se na bengala. Todos os outros idosos já estavam almoçando. Depois, continuariam esperando a vida passar, cada um apegado às suas lembranças.

COMO AJUDAR O ASILO

Alimentos não perecíveis: leite, macarrão, óleo, bolacha, café, açúcar, arroz, feijão …

Material higiênico: fraldas geriátricas (G e GG), produtos de higiene pessoal

Doações financeiras (para pagamento de luz, água, funcionários): Banco do Brasil Agência4236-6, conta corrente 105.014-1

Visitas: Qualquer pessoa pode visitar a instituição, assim como corais, grupos de teatro, leitura e dança

A casa também precisa de novos voluntários

Informações: 3222-7544

(Matéria publicada no jornal de sábado, dia 4/out/2014)

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