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Björk no mato

22 de agosto de 2008 4

Diego De Carli

(da série música boa onde menos se espera)

Não poderia haver cenário melhor para uma apresentação da interminável tour que promove o colorido Volta. A bonequinha islandesa ornamentou o primeiro dia do tradicional festival português Sudoeste, que acontece anualmente na costa alentejana do país, bem ali, em algum ponto entre o nada e o mar. Como atrações principais, foram arrastados ainda para o meio do mato Franz Ferdinand, Goldfrapp e Chemical Brothers. Ah, e Vanessa da Mata.

 

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Entre aparatos tecnológicos e bandeiras de lugar nenhum, soavam as batidas arquitetadas sob medida por Timbaland. Vestida com uma espécie de manto, fazendo alusão a alguma divindade qualquer, Björk Guðmundsdóttir anunciou sua invasão ao palco do Sudoeste. Durante a execução de Earth Intruders, Björk estava estranha – desculpe a redundância da afirmação. Em ritmo particular e descompassado, aparentava, talvez, o cansaço acumulado de uma tour que se prolongou por mais de um ano – e que passou pelo Brasil em outubro passado.

I’m the Hunter
De divindade desvanecida à caçadora impávida, Björk lançou sua teia sobre o povoado e aliciou para a dimensão à parte de Volta os ainda marginais. E neste exato momento deu-se início ao espetáculo crescente que atingria, dentro de pouco, um apogeu inimaginável.

>>> Hunter (live @ sudoeste – Portugal)

Já despida do manto sagrado, Björk parecia realmente pronta para ministrar o ritual que seu rebanho esperava. Um culto embalado ao ritmo do que há de melhor na poesia pagã. Quem não se rendeu com a atuação de Pagan Poetry, certamente caiu de joelhos perante a irretocável beleza de All is Full of Love.

Entre as curvas do passeio pelas dimensões criadas em Vespertine, Volta e Homogenic, chega-se ao território ardiloso e minimalista do incompreendido Medúlla. No lugar dos gemidos do prolífico Mike Patton em The Pleasure is All Mine, ouviu-se um teclado semi-fúnebre a fluir em sincronia com os vocais.

Ao fim do momento sombrio, mesmo com pouca iluminação, o palco se enche de luz. Björk ausenta-se e, merecidamente, os holofotes caem sobre as Wonderbrass. Vestidas a rigor e ostentando seus instrumentos mágicos, executam Overture, fazendo com que cada componente da plateia se sentisse sozinho sobre o palco, rodeado por islandesas e dançando no escuro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com uma bagagem de mais de 30 anos dedicados à música, a criança quaternária retorna ao palco. Se Overture foi completa sem vocais, Immature supera expectativas sem o apoio instrumental. Com a sutileza de um anjo, flutua do lamento pela imaturidade à imposição do exército de uma só mulher. Army of Me, assim como todas as canções paralelas ao universo de Volta, ganhou novos arranjos, novas cores e novos sabores. Depois de uma versão melhorada de I Miss You, Who is it? Era a questão quando Björk trouxe ao palco um simpático senhor de bengala e seu estranho instrumento. Chamado Toumani Diabaté, aconchegou-se e pôs-se a extrair sons de sua kora, aparelho de origem africana. Após um curto e empolgado solo para a Björk sorrir e dançar ao seu redor, emenda-se o início de Hope.

>> Hope (live @ Sudoeste 2008)

Finda a viagem em ritmo neo-tribal por territórios africanos, a pequena encaminha um público de 20 mil pessoas para a sua pequena ilha de origem, entoando a belíssima Vökuró em língua-mãe. Da Islândia, a bordo de uma “casa flutuante”, direto para a pista, e com vista privilegiada para as montanhas nórdicas, onde Björk expõe sua inquietação com as dançantes Wanderlust e Hyperballad.

>> Wanderlust (live @ sudoeste 2008)

Excuse me, but I have to explode
Com o início da chama desencadeado por Wanderlust e Hyperballad, Pluto veio para arrancar labaredas do Sudoeste. A cada pancada hipnotizante de Mark Bell e companhia, a massa aproximava-se mais e mais do palco. Já não havia barreiras entre artista e público, tão pouco havia espaço para racionalizar o momento.

>> Pluto (live @ sudoeste 2008)

Incrédulos com o palanque vazio, a multidão, que aos poucos voltava a si, clamava por mais daquilo que os tinham oferecido. Retorna então às vistas uma Björk debutante, relembrando os tempos em que seu nome não causava estrondo no mainstream, com a idosa The Anchor Song.

Antes da despedida definitiva e inevitável, foi com chuva de confetes e um público ensandecido em suas mãos que a miúda soltou o grito de independência. No recinto, restou um chão empoeirado e coberto com os resquícios da explosão provocada, reflexo perfeito do desmantelamento grupal ali sucedido, onde ainda retumbam os risonhos “oprrrrigadós” que Björk soltava ao fim de cada melodia.

Set list
Brennið Þið Vitar
Earth Intruders
Hunter
Pagan Poetry
All Is Full Of Love
The Pleasure Is All Mine
Overture
Immature
Army Of Me
I Miss You
Who Is It?
Hope (com Toumani Diabaté)
Vökuró
Wanderlust
Hyperballad
Pluto

Bis
The Anchor Song
Declare Independence

Quando o Brasil orgulha e envergonha
De uma forma ou outra, o Brasil foi presença destacável na noite do evento. Para preparar – e entreter – o público antes da materialização de Björk, subiram ao palco do festival os portugueses do Clã, banda que é mais ou menos um Pato Fu – só que com sotaque da terrinha e um pouco mais faceiro.

>>> Vamos esta noite (live @ sudoeste 08)

A identificação entre ambas já foi percebida e as colaborações podem ser conferidas nas faixas Boa noite Brasil (Toda Cura Para Todo o Mal, do Pato Fu) e no álbum Cintura, do Clã. As cooperações mútuas culminaram, inclusive, em uma apresentação conjunta na última edição do Rock in Rio Lisboa.

Na falta de Fernanda Takai, o mestre Arnaldo Antunes – que apresentaria seu som em uma tenda paralela – foi convocado a dividir sua composição de H2omem com a voz rouca e ao mesmo tempo angelical de Manuela Azevedo.

>>> H2omem (live @ sudoeste 2008)

Antes ainda da banda portuguesa e o convidado ilustre, Natiruts foi a responsável por começar a agregar cabeças em frente a um palco ensolarado – que, inesperadamente, arrancou elogios do vocalista, admirado com as estrelas que só ele conseguia enxergar ao redor de um sol de 30 e poucos graus.

Com um discurso que pregava a paz entre os homens, misturando coragem e uma retórica vazia, o vocalista relembrou os presentes da sua cor e diz perdoá-los pelo passado que une Brasil e Portugal. O silêncio acompanhado de uma interrogação foi a resposta da diminuta multidão, que estava mais interessada no beija-flor, que trouxe meu amor, voou e foi embora, sinalizando Alexandre Carlo de que ele deveria ter mandado menos liberdade pra dentro da cabeça antes de subir ao palco.

Em breve, a segunda e última parte da série “música boa onde menos se espera”.

 

>>>>> Leia e veja fotos sobre o show de Björk no Tim Festival 2007

>>>>> Vídeos: Tim Festival 2007

Postado por Diego De Carli

Comentários (4)

  • Raquel Carneiro diz: 25 de agosto de 2008

    Ai, que ódiooooooo!!!!
    Linda matéria, e diretamnete do mato!
    Impressionante!
    Um beijo, Dieguito!

  • vitor diz: 26 de agosto de 2008

    pois então, gajo… assim como a rapariga analu, vi esta mocinha na pedreira em curitiba. foi a melhor coisa da noite, tudo muito próximo ao que escreveste.

  • Ana Luiza Bazerque diz: 23 de agosto de 2008

    Essa miúda também me transformou, nunca me recuperei das coisas que vi e ouvi nesse show (TIM 2007).

  • Jaciih diz: 22 de agosto de 2008

    A Björk é estranha demais. o.o`

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