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Projeto CCOMA faz saravá eletrônico

20 de janeiro de 2010 3

Sagara e Beto/Divulgação

O projeto instrumental CCOMA, que há cinco anos cria música misturando jazz, música brasileira e eletrônica, lançou no final do ano passado um novo álbum, Incoming Jazz.

Ao escutar o som do duo de Caxias do Sul é possível que você identifique sonoridades ou elementos já conhecidos. No entanto, o projeto consegue aliar ao usual alguns traços tipicamente brazucas, conservando ainda assim uma universalidade característica dos tempos atuais. Além disso, a qualidade da produção e das composições surgem como um ponto positivo na música do CCOMA.

Ouça a versão mais eletrônica da música Dogs are Gods, a única com letra composta pelo projeto até hoje:

DOGS ARE GODS (RADIO EDIT) mp3 by ProjetoCCOMA

Nesta entrevista feita por e-mail, os músicos Beto e Sagara comentam como rolou o início do CCOMA, os shows realizados em Londres, o poder de síntese criativa de ambos, a influência de Miles Davis e o atual momento de música eletrônica no Brasil.

Antes de tudo, gostaria de saber qual a pronúncia do nome do projeto. É “coma” mesmo ou algo como “c-coma”?

Beto: A pronúncia é COMA. O nome do projeto surgiu quando percebemos que ocorre um coma musical na sociedade, induzido pela mídia de massa. Também porque coma é o espaço entre um semitom e outro das notas musicais. Outro motivo é que coma significa vírgula em espanhol, ou seja, queremos possibilitar um espaço, um momento, para as pessoas reflitam mais sobre a nossa música.

O projeto têm uma trajetória de cinco anos. Como foi o início da banda e como tem sido tocar ao vivo neste período?

Beto: O grupo começou com a sede de experimentar coisas novas como, por exemplo, música eletrorgânica. Os integrantes iniciais eram Moishe Matsenbacher e Swami Sagara. Com o passar do tempo surgiram outros integrantes: eu, Beto Scopel, no trompete (dei uma pitada mais jazz) e depois Cedrik Damabiah, um grande DJ pesquisador que agregou muito ao grupo. Hoje, o Projeto CCOMA é composto por Swami Sagara e Beto Scopel efetuando uma mistura como dizemos, saravá eletrônico com Miles Davis.

Sagara: Iniciamos como um grupo de percussão, mas que tinha muita vontade de misturar sons de vários lugares. Inclui-se aí sons de cidades, furadeiras, motores, etc. Depois de algumas experiências, fomos descobrindo algumas possibilidades como a música criada eletronicamente. Convidamos um DJ, Cédrik Damabiah e com ele chegou a influência dos sons da Ásia. DJs costumam ser muito mais pesquisadores do que os músicos. A entrada dele trouxe um frescor e uma nova consciência ao CCOMA. Depois, por motivos particulares, Cédrik não se apresentou mais com o CCOMA, mas permanece no grupo, na criação e na pesquisa.

Vocês tocaram no Guanabara, em Londres. Como foi? Fizeram outros shows pela Europa?

Beto: Foi uma experiência muito gratificante e com um quê de desafio. Até porque levar a música eletrônica feita no Brasil para um continente onde esta música nasceu é desafiador. Foi uma ótima experiência e pretendemos voltar. Tocamos na rua também. Lá, eles chamam de busking, que é uma experiência bem interessante. O contato com o público é mais próximo, diferente dos palcos. Os músicos brasileiros deveriam experimentar mais.

Sagara: O show do Guanabara é um marco em nossa trajetória, pois conseguimos encontrar pessoas que sintonizassem com nosso trabalho em uma das cidades mais importantes para a música no mundo hoje. Isso nos dá confiança para seguirmos na busca da nossa música e também para acreditar que é possível fazer música eletrônica com pitadas de jazz sem ser piegas.

O novo disco de vocês, Incoming Jazz, tem foco no nu-jazz, algo que já ocorreu no álbum Das Comma Project, mas talvez não de forma tão clara. Além disso, há sonoridades brasileiras inegáveis. Qual a formação musical de vocês e qual foi o elemento motivador para a criação de um disco ‘jazzy-brazuca-eletrônico’?

Beto: Minha formação teve início aos 10 anos, na música erudita barroca e contemporânea. Passei pelo jazz e improvisação, MPB instrumental até chegar à música eletrônica.

Sagara: Prefiro saravá-eletrônico-MillesDavis, heheh. Eu sou baterista e percussionista há 24 anos. Comecei aos 11 e minha maior influência é a de minha mãe. Quando eu era criança, ela me acordava ouvindo MPB da primeira linha. O primeiro disco que ganhei foi Vinicius de Moraes, A Arca de Noé 1. Na casa de minha mãe nunca teve música de procedência duvidosa. Mas acho que o jazz vem do Roberto, o brazuca vem da percussão e o eletrônico é a parte experimental. Fazer um disco de jazz? Já foram feitos vários. Fazer um disco de música brasileira? Vários. Eletrônico? Nunca se fez tanto. Agora, jogar tudo isso num caldeirão e mexer em fogo baixo por cinco anos… Talvez aí esteja a possibilidade de conseguirmos viver honestamente de música nesse mundo pós-revolução MP3.

An Elephant Crossing the Room foi gravada mais de 30 instrumentos de percussão, incluindo pá de pedreiro e apitos. Como é criar uma música tendo em vista o uso de tantos instrumentos ao mesmo tempo?

Sagara: Como o disco já tinha nome definido e esse nome permite muitas experiências, pensamos em tentar criar uma música que usasse somente percussão e trompete. Nada de eletrônico foi usado nesta música.

É inevitável lembrar de Doo-Boop, de Miles Davis, ao escutar Incoming Jazz. O disco do mestre foi uma inspiração direta?

Beto: Com certeza é o nosso grande mestre, mas também é um personagem musical de vanguarda  que rompeu barreiras desde o beebop, criando o cool jazz, fuzion.

Sagara: Muitos escolhem um judeu com mestre. Outros escolhem um indiano, outros escolhem um tibetano. Tocar trompete e não ter Milles como mestre seria como jogar futebol e não reconhecer Pelé ou Maradona como inspiradores.

Voltando a falar sobre shows, vi uma foto em que vocês se apresentaram com roupas brancas e máscaras. Isso rola sempre? Ou foi algo especial?

Beto: Nos apresentamos com essa roupa branca pois percebemos que a música pode ser cativante por si só, mas ela pode ter outros elementos. Projeções de imagens, figurino, perfomances corporais, para ficar mais interessante para o público, incluindo vários elementos visuais que acrescentam muito a um show.

Sagara: Quase sempre. Quando o evento combina e permite, usamos as roupas. Quando está muito quente ou o show é durante o dia, preferimos não usar.

Como já foi dito, vocês não criam música eletrônica “pura”. Por isso acho interessante perguntar como vocês encaram a produção deste estilo musical no Brasil hoje. Acompanham o trabalho de DJs, produtores e/ou bandas eletrônicas? O que vocês curtem nesse sentido?

Beto: Nós percebemos que a música eletrônica no Brasil é bem significativa, mas ainda sentimos um certo tipo de estagnação no jeito de fazê-la. Primeiro porque existem muitos DJs fazendo música que ficam só no estilo comercial usando aquela forma de sempre, para ganhar dinheiro. Isso não é ruim, porque todo mundo gosta de ganhar dinheiro, mas às vezes a qualidade fica um pouco enlatada, compreende? O bom seria que a música eletrônica, no Brasil, pudesse ser feita de um jeito mais natural. Percebemos também que existem muitos grupos musicais no mundo experimentando a música eletrorgânica. Achamos que esse é o caminho, pois essa ferramenta que é o computador é uma tecnologia  muito recente, é natural que existam trabalhos bons ou ruins devido à grande diversidade cultural. Dzihan&Kamien; Kraftwerk.

Sagara: Acho que o que fazemos se chama música eletrorgânica, que é um híbrido das duas. Mas a chamada música eletrônica atual é a música dance para as pistas. Isso talvez seja um pouco perigoso. No Brasil, há uma grande confusão com respeito aos DJs. Qualquer um que tenha um Ipod pode ser DJ no Brasil. Fora daqui é um pouco diferente. Existem DJs tocadores que se encarregam de fazer as pessoas dançarem. Existem os DJs Selecta que são especializados na pesquisa de músicas novas, ou de músicas muito antigas. E existem os DJs Produtores, que fazem músicas. Na minha opinião, esses são músicos também. Dos trabalhos de música brasileira eletrônica, destaco o Propulse (muito eletrônico), também do Marcos Valle (remixes dos sucessos da segunda onda da bossa nova), e do Guizado, que é um trompetista de SP q faz um trabalho semelhante ao nosso.

Ouça mais músicas e veja outros vídeos em www.projetoccoma.blogspot.com/. Ouça o álbum Incoming Jazz neste link e outros discos aqui.

>>>>> Site do Projeto CCOMA

Postado por Danilo Fantinel

Comentários (3)

  • Lupcinio diz: 22 de janeiro de 2010

    o som deles me lembrou walter carlos, aquele do laranja mecanica. claro q o trompete dá um toque de jazz. acho q poderia ter mais percussão. nota 8. mas, por ser independente dá pra dar um 9.

  • flavia diz: 9 de fevereiro de 2010

    Parabéns pelo trabalho.
    Adoramos o último CD Incoming jazz.
    O trabalho interativo com o público, imagem e som é símbolo da modernidade.
    Sigam nesta!
    Flávia

  • Felipe Dutra diz: 21 de janeiro de 2010

    de onde sao esses marcianos? de POa? qndo tem show deles? Ouvi e gostei! abcs.

    >>>>> eae! são de Caxias do Sul, como diz no texto. você pode conferir a agenda de shows deles nos sites indicados no post, ok? abraço!

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