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Fuerzabruta, resultado fraco

19 de setembro de 2012 0

Fotos: Felix Zucco

Atualizado às 18h30min

Fuerzabruta, o espetáculo argentino baseado em narrativa não-linear, dança e música eletrônica, que já rodou boa parte do mundo, estreou segunda passada e segue em cartaz até sábado, dia 22, no Pepsi On Stage, dentro da programação do 19º Porto Alegre Em Cena.

A partir de cenas desprovidas de diálogo, coreografadas ou não, e com apoio de aparatos tecnológicos variados, os atores simulam cenas do cotidiano atribulado das grandes cidades.

Fuerzabruta retrata o homem em conflito com seu ambiente, sem domínio sobre as pessoas e as coisas em seu entorno, e que precisa estar sempre em processo de adaptação para não submergir socialmente. Isso, claro, é difícil para qualquer um. Muitos sucumbem. Tendo isso em vista, a cena de abertura torna-se emblemática: sobre uma esteira, um ator caminha para frente, mas anda para trás.

Com estrutura móvel grandiosa, altos decibéis e direção de luz efetiva, a performance está mais para rave do que para teatro pós-moderno. Nesse sentido, não é de se estranhar que não haja uma história propriamente dita a ser contada, exigindo que o espectador tire suas próprias conclusões sobre o que se passa. Porém, é surpreendente o fato de várias cenas serem muito parecidas entre si – e mal resolvidas, sem análise ou conclusão.

Em diversos momentos, atores correm sobre as esteiras, passam por portas e paredes de isopor, sobem escadas e chegam a lugar algum, seja ele real ou metafórico. A toda hora, dançam sobre modulados como se a vida fosse uma festa non-stop – e ela não é. Há rotina, repetitividade e continuísmo nesses andamentos, como também há em nossas vidas, algo bem observado pelo grupo. Mesmo assim, são movimentos desconexos, que se repetem, mas não se completam. A sensação de déjà vu metalinguístico é constante, uma espécie de loop de onde os atores/personas lutam para sair.

Então podemos fazer pelo menos duas leituras: por um lado, a repetição cênica seria a representação crítica de um cotidiano burguês enfadonho e, por outro, um sintoma da pouca criatividade do grupo em termos de cena, contexto, maquiada com excelência técnica. “Movimentos Obsessivos e Redundantes Para Tanta Estética”, para citar Gerald Thomas.

Em meio à pirotecnia clubber, salvam-se duas cenas. Numa delas, duas bailarinas dançam e correm no ar, penduradas sobre cabos e à frente de uma cortina metalizada fazendo as vezes de oceano. A água é o elemento constante do espetáculo. Ver ali, bem de perto, foi ótimo.

Ma melhor de todas, quatro atrizes atuam dentro de uma piscina gigante com fundo de plástico transparente, presa ao teto, que desce, se aproximando do público. Vemos tudo de baixo, atônitos. Podemos tocá-las, olhar em seus olhos numa espécie de ballet submarino às avessas. O visual extraordinário, de beleza única e plasticidade absoluta, faz lembrar uma obra renascentista. Desde já, posiciona-se como um dos momentos mais legais já apresentados em toda história do Em Cena.

No entanto, perto de grupos performáticos poderosos como Stomp, Blue Man Group e principalmente La Fura dels Baus (este o mais radical, inventivo e instigante de todos, que abalou o próprio Em Cena em 1997), o espetáculo argentino se perde em sua superficialidade contemporânea. Para disfarçar, tudo acaba em uma rave trance-tribal-tech abaixo de uma fraca chuva artificial – isso em uma semana em que chuva real e forte não faltou na capital gaúcha.

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