Sabem, não sei se detesto mais a demagogia ou o "politicamente correto". Ou ambas as posições confrontadas com este populismo execrável que está enraizado na cultura Sul-Americana. Não gosto porque qualquer uma destas posições escamoteia o justo e o verdadeiro. O objetivo é sempre o mesmo: capitalizar simpatias, quase sempre de massas intelectualmente comprometidas com conceitos equivocados ou por limitação de consciência.
Restou deste episódio que focou a onda de calor um leque de considerações que não resistem a uma filtragem mínima praticada em balcão de boteco. Elas saíram de todos os lados e não mereceram um dedo de aprofundamento. Relaciono algumas:
- Televisão vilã: Como sempre, sobrou para a Rede Globo. Cabe, aqui, uma informação extra-tema: quando os jogos da Dupla estão disponíveis apenas pelo pay-per-view, direciona-se a responsabilidade para a televisão. Todo o mundo fala, mas poucos sabem que esta é uma escolha dos clubes, interessados na participação dos dividendos proporcionados pelo pay-per-view. Mas voltemos ao nosso foco.
- Terminado o contrato que os clubes, através do Clube dos 13, mantinham com a Globo, foi aberta concorrência entre as redes nacionais. Perguntem ao presidente da entidade, Fábio Koff, quantas propostas foram apresentadas. Antecipo-lhes a resposta: apenas uma. Mesmo sendo única, a televisão aceitou majorar valores sem tirar vantagem da falta competição. Já faz tempo que a receita proveniente da comercialização de imagens significa parte significativa dos orçamentos dos clubes. Para muitos deles, mais de 50% dos seus orçamentos são cobertos pela televisão que, em contrapartida, define os horários dos jogos, com a concordância plena dos clubes.
- Com relação a venda do Gauchão, repetiu-se a história: nenhuma proposta foi apresentada, além daquela oferecida pela Globo. Para se ter uma ideia clara sobre o que representam os valores pagos aos clubes do Interior, basta lembrar que eles cobrem as folhas de pagamentos. Hoje, salário em dia é sinônimo de verba da TV. Esta televisão é, mesmo, uma vilã.
- Calor elevado impõe riscos aos jogadores. É desconfortável, sem dúvida. Mas os alegados riscos só foram descobertos agora, após um século de futebol, muitas vezes disputado sob calor intenso, neve, campos embarrados, etc. É dose!
- Muito calor derruba a qualidade técnica do espetáculo. Pura verdade. O mesmo efeito, entretanto, é produzido por frio intenso, chuvas, salários atrasados, noitadas, etc. Para não falar da desqualificação técnica, pura e simples.
Na liminar concedida ao Sindicato dos Atletas, constam argumentações como: o ser humano "não é peça para enriquecimento das elites" e esta: é o jogador quem paga "com o seu suor os lucros das redes de televisão". Discurso lindíssimo, mas totalmente apartado da realidade. Se existe uma elite no futebol, esta é formada por jogadores que se tornam milionários, da noite para o dia. Quanto à segunda afirmação, o equilíbrio mínimo de uma análise racional indica que as televisões ajudam a remunerar o suor dos jogadores. Trata-se de um jogo de contrapartidas.
Sinceramente, acho muito desgradável jogar futebol sob calor de 40 graus. Pena que nunca houve um advogado, sequer, interessado em preservar a saúde de tantos trabalhadores que labutam sob sol escaldante, sem contar com preparação física, alimentação adequada, recursos medicinais e acompanhamento especializado de jogadores de futebol. Mas é fácil entender: nenhuma atividade, como o futebol, garante tanto espaço na mídia. E não se tratam de meros 15 minutos de fama.



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