
Meu querido colega Leonardo Cardoso mostrou-me um texto e, após degustá-lo, pedi licença imediatamente para publica-lo. O Léo é ainda muito jovem, ainda não viveu tempo suficiente para ser tocado pelo saudosismo. Mesmo assim, revelando paixão pelo futebol que o acompanha desde que começou a entender o mundo, lamenta a transformação ocorrida nas últimas décadas quando este apaixonante esporte migrou da categoria de disputa esportiva para o mercantilismo puro. Acompanhem o texto do Léo, vocês vão gostar:
"O FUTEBOL PERDEU A SUA ALMA
Por Léo Cardoso
Poucas semanas atrás assisti ao tie-break de uma partida de vôlei entre Minas e Montes Claros, pela superliga de vôlei. O jogo tinha sido disputadíssimo, com direito a viradas espetaculares, erros de arbitragem e discussões entre um ponto e outro. E não foi diferente no set decisivo. Placar apertado, ataques fortes, sofrimento e mais lances duvidosos. Ao final, o clube da capital mineira saiu vencedor. Festa no ginásio. Porém, o que me chamou a atenção nesta partida foi o momento em que a merecida comemoração foi interrompida para a realização de um dos mais belos rituais do esporte: o cumprimento à equipe adversária na rede. Mesmo depois de uma batalha em quadra e de uma vitória suada, todos os atletas vencedores contiveram a euforia e se dirigiram cordialmente para o centro da quadra. Os derrotados, da mesma forma, engoliram a tristeza e sorriram, dando os parabéns aos adversários vitoriosos. Uma bela cena que, infelizmente, está cada vez mais rara de se ver nos gramados. Nas arquibancadas, então, nem se fala. O futebol perdeu esse encanto do esporte, pois virou negócio, em que o resultado final é infinitamente mais importante do que a disputa.
Há alguns meses li um artigo publicado em uma edição de 2007 da revista Piauí que levava o titulo de “O esporte que vendeu sua alma”. Trata-se de um relato do antropólogo Marcos Alvito, durante visita à Inglaterra, sobre a situação do futebol daquele país na época e como um passatempo das mais baixas classes inglesas se tornou um esporte mundialmente conhecido que move cifras incalculáveis. Alvito fala dos times vendidos, dos empresários e donos de clubes, das construções de estádios e arenas patrocinadas por empresas milionárias dos mais variados segmentos e faz um contraponto com as divisões mais baixas, em que os jogadores ainda trabalham de dia para treinar à noite. Quatro anos após ser publicado, o texto pode muito bem ser aplicado ao Brasil. Muito do que foi contado ali pode-se ver acontecendo hoje em nosso país. O futebol virou empresa. A paixão foi substituída por interesse. Jovens deixam o país para alimentar a demanda internacional. Voltam tempo depois para encerrar a carreira atraídos por promessas de retorno financeiro garantido por campanhas de marketing que usam a imagem do atleta. Um grande business que pouco tem a ver com esporte.
Os clubes, pouco a pouco, perdem suas identidades. E nas arquibancadas, os torcedores seguem o mesmo rumo. Vão ao estádio para ver, muitas vezes, um time que nada mais tem das raízes que um dia o fundaram. Chegam para ver a vitória. Descontrolam-se quando ela não vem. Nessa transformação dos clubes em empresas, a torcida passa a ser cliente e, como tal, começa a cobrar o serviço pelo qual pagam. Com isso vem a cobrança exacerbada, a violência contra diretores e atletas, as confusões generalizadas. Poucos ainda vão em busca do espetáculo, do prazer de assistir a uma partida de futebol. A flauta saudável deu lugar às juras de morte nas redes sociais. Juras que não raro estampam os jornais, concretizadas.
O futebol não tem mais poesia. Endureceu, cedeu às engrenagens do negócio lucrativo. Se afastou da condição de esporte, passou a ignorar o conceito de arte que o classificou durante décadas. Esqueceu de seus craques que amaram a camiseta, acariciaram a bola, deslizaram pelo campo. Dizem que o futebol evoluiu, que os jogadores de hoje são mais bem preparados, mais habilidosos. Há mais estrutura, mais infra-estrutura. Uma evolução puramente material, pois, por dentro, o futebol perdeu sua alma."

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