E o homem confessou, não tinha nada para fazer naquela manhã de sábado. Arrisco dizer que ele não tem nada para fazer sempre, pois todos os dias é a mesma cena àquela hora da manhã. Depois de comprar seu jornalzinho, e aposto que nem lê, diz ele que iria para casa tomar café e desfrutar de um vazio sem tamanho. Tudo bem, cada um com seus problemas. Seria atrevimento propor que ele ficasse vendendo os periódicos no meu lugar enquanto eu curtiria sua monotonia?
O sujeito não é meu cliente, mas recorre a quem quando não avista a menina dos olhos? E estou ali para informá-lo que ela já vai chegar, pois ainda é muito cedo. A propósito, sendo cedo de mais e não tendo nada para fazer, por que este infeliz acorda com as galinhas todo santo dia? Para encontrar com sua vendedora, ora. E ele escolheu a mais bonita para fazer suas propostas indecorosas. Bela hora para eu agradecer por ter nascido homem e feio.
O que me dá mais nojo nessa pessoa, além de não ter nada para fazer, é a arrogância de achar que mostrando todo o dinheiro que tem no bolso conseguirá alguma coisa com a moça. Sempre que vai comprar o jornal faz questão de mostrar que tem muito dinheiro. Até brincamos, dizendo que um dia ainda vamos assaltá-lo enquanto ele exibe sua riqueza.
- Quando ele mostrar o dinheiro, você acerta na cabeça que eu pego a grana e saio correndo. - Planeja minha colega de vendas.
E não estou falando de pouca coisa, falo de onças e peixes acompanhados de uma conversa mole que geralmente termina em um "vamos até lá em casa almoçar, a gente dorme um pouquinho e eu te dou um dinheiro". Assim na cara dura, como quem pergunta que horas são ou que dia é hoje.
Outro dia a vendedora inventou de falar, na presença dele, que sonhava conseguir um namorado rico. O sujeito logo se prontificou a ajudá-la puxando o dinheiro do bolso.
- Sabes que pode conseguir se quiser. - Diz o homem mostrando o dinheiro como incentivo.
Por isso digo que me dá nojo da criatura, vendo tanto dinheiro nas mãos de uma pessoa que nem sabe usá-lo de modo decente.
Este mês a vendedora está em férias, e graças a isso fomos poupados da conversa mole do seu cliente. Ela retornará semana que vem, e tenho a sensação de que a figura reaparecerá bem neste dia, para lembrá-la de que sua última proposta está de pé: uma casa em seu nome caso aceite se casar com ele.
Se está blefando eu não sei, mas que ele não desistirá tenho certeza. E lá vamos nós, mais um ano ouvindo essa ladainha até que a colega tire férias novamente.
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