Venho pensando neste post já há alguns dias e, inspirado pelo tema central de discussão das últimas semanas, o crack, seus males e o que podemos fazer para enfrentá-lo, recordei de uma cena que me fez pensar.
Estava voltando de ônibus do Centro - se bem recordo no Rio Branco/Anita, linha 525, que seguido tomo na Goethe. Sem lugar para sentar-me, no mais corriqueiro trajeto de volta para casa, olhei dentre as pessoas e me chamou atenção um menino, de origem mais humilde, não parecia morador do bairro, que vestia um boné que achei até de certo bom gosto, diferente, um tecido xadrez com uma palavra em letras ao estilo manuscrito na frente. De primeira, pelo ângulo, não pude ler, mas em seguida quando o guri virou-se, pude bem ver o verbete Facção.
Pode parecer um pouco exagerado, mas me choquei de certa forma com aquilo. O garoto não parecia ter mais do que 10 anos de idade. Acho que as razões pelas quais aquela palavra estampa sua testa, quando veste o boné, não são acaso de uma escolha aleatória daquele incomum verbete ao universo das crianças.
E o mais triste, para mim, é que, provavelmente sem saber o verdadeiro significado do termo, mas sim na sua mais usada expressão, o garoto também sabe porque ali ele carrega orgulhoso um bonito chapéu com uma péssima idéia. Sem subestimar qualquer evidente conclusão dos que lêem este post, revelo literalmente a expressão a que me refiro: facção criminosa.
Sem saudosismo de um ainda vintão, quase trintão, lembro, inevitavelmente comparando, da minha infância. Onde os bonés que usávamos eram de super heróis dos desenhos animados, mais coloridos. Orgulhávamo-nos de ter alguns exemplares dos times mais populares de basquete americano e, infelizmente, tínhamos medo de andar na rua com eles e sermos roubados, o que já se tornava comum naqueles primeiros anos de 1990.
Porém, éramos felizes e, embora já não vivessemos numa era de heróis policiais, ao menos, parecia impensável a ideia de um boné de um garoto estampar um termo esdrúxulo como Facção. Ainda mais com a razão que não parece outra se não a já por mim supracitada, creio. Mas hoje há um motivo para ele ali estar, e, infelizmente, não é para enriquecer o vocabulário de nossos jovens, mas talvez lembrá-los de novas crenças, que os "bam-bam-bans da vez" não têm superpoderes fictícios e não lutam por justiça - seus poderes eles mesmos conquistam, e a justiça alternativa eles que fazem.
Exemplos de um caminho (curto) para uma juventude cada vez menos instruída sob valores corretos, e mais preguiçosa para vencer de mãos limpas. Os herois deles portam armas que matam de verdade e vendem drogas, como o próprio crack, para ser, quem sabe um dia, o chefe de uma facção criminosa e dar sentido real à ideia de poder discretamente contida no boné que orgulhoso leva sobre a cabeça.
Resta-nos a mobilização e uma corrente de ações e fé, para quem sabe, travarmos esse processo onde herois de ficção estão começando a perder espaço para os herois de facção...
Postado por João Victor Eltz da Silva, Conselho de Blogueiros
Comentários