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Posts com a tag "centenários"

ZH Moinhos nas bancas

21 de novembro de 2012 0

No ZH Moinhos que circula nesta quinta-feira, você confere a última reportagem da séria Centenários . Aos cem anos, Carmem Cauduro de Oliveira vive em um apartamento no Moinhos de Vento repleto de fotos de netos e bisnetos e recordações de um século de história.

Além disso, saiba o que falta para a conclusão das obras de prolongamento da Rua Santo Antônio e qual é a previsão de término.

Na página 5, leitor-repórter aponta risco de queda de árvore na Rua General João Telles.

Especial Centenários: a vizinha que viu nascer o Moinhos de Vento

21 de novembro de 2012 1

O ZH Moinhos encerra hoje a publicação de uma série de reportagens sobre os centenários que moram na região. Através de suas histórias, saiba como vivem e o que viram pessoas que atravessaram um século de história. Na quarta e última edição, que circula nesta quinta-feira, conheça Carmen Cauduro de Oliveira, 100 anos, moradora do bairro Moinhos de Vento.

Luísa Medeiros

O ano em que Carmen Cauduro de Oliveira, hoje com cem anos, nasceu, uma invenção revolucionou o dia a dia das pessoas. Era 1912, quando a General Motors anunciou, nos Estados Unidos, uma das mais importantes invenções da indústria automobilística: o motor com partida elétrica. Tornou-se possível dar a ignição no motor apenas girando uma chave, eliminando a manivela.


Em uma época em que até o relógio parecia mover-se mais devagar, ganhava-se em agilidade, praticidade e mobilidade. Com a novidade, os veículos movidos a gasolina, mais rápidos e potentes, começaram a se popularizar. Anos mais tarde, a novidade chegou ao Brasil, quando Carmen ainda era criança. Essa foi apenas uma das grandes transformações que a moradora da Rua Doutor Timóteo, no Moinhos de Vento, presenciou. E que, até hoje, a impressionam:

– Não consigo lidar com a ligeireza das coisas de hoje. A gente vai dormir com um fato acontecendo, e de manhã já virou tudo. Não sei se isso é bom.

Da janela do apartamento onde mora há pelo menos 35 anos, em frente ao Parque Moinhos de Vento, ela vê o imenso tapete verde tão característico da região. Quando os netos eram bem pequenos, descia para levá-los no parquinho e tinha de se sentar ao sol, pois ainda não existiam, por ali, as imponentes árvores. Hoje, vê os incontáveis prédios em volta do Parcão e aponta para o centro:

– Só tinha aquele prédio ali. O resto era chão batido.

Porto-alegrense de nascimento e de coração, como gosta de enfatizar, passou quase toda a vida na Capital. Perdeu os pais muito cedo e foi morar com os tios em um hotel no Centro. Por isso, acompanhou de perto o desenvolvimento da Porto Alegre do século 20.

– A cidade preservava uma tranquilidade. Ainda criança, eu brincava na calçada, pulando corda – narra.

Com 16 anos, a estudante começou a trabalhar como alfabetizadora no, então, Porto Alegre College, hoje Instituto Porto Alegre (IPA). Pegava um bonde do Centro até o final da Avenida Independência, e o resto do trajeto era feito a pé.

– Tínhamos de subir todo o morro caminhando. A família Mostardeiro, que tinha uma grande fazenda na região, abria as porteiras onde hoje fica a Rua Dona Laura e nos deixava passar para encurtar o caminho – lembra, com detalhes, de uma época em que o bairro Moinhos de Vento ainda nem existia.

Foram 10 anos de subidas diárias no local conhecido atualmente como morro do IPA.

– Hoje, quando caminho com as pernas firmes, sempre lembro que adquiri isso naquela época – garante, enquanto desliza seu andador com agilidade pelo apartamento repleto de objetos antigos, fotos de netos e bisnetos e recordações de um século de história.

Por volta dos 25 anos, casou-se pela primeira vez e foi morar em Flores da Cunha. Acostumada com a dinâmica da cidade, estranhou muito a vida na Serra. Quando tinha apenas dois anos de casada, no entanto, uma tuberculose vitimou seu primeiro marido. A viuvez precoce trouxe Carmen de volta à Capital, de onde não saiu mais. Casou-se novamente, poucos anos depois, com o procurador Álvaro de Oliveira. Prestou um concurso e tornou-se funcionária pública. Foi nessa época que sua vida mudou muito.

– Meu marido gostava muito de viajar, então conheci muitos lugares como Europa, Argentina e Uruguai.

Talvez por isso a maternidade tenha sido tardia. A primeira filha chegou quando Carmen tinha 40 anos e o segundo, aos 45 anos. Sempre muito ativa, só parou de trabalhar aos 61 anos, quando se aposentou. Dez anos depois, em 1983, ficou viúva mais uma vez. Até completar 90 anos, ainda morava sozinha no apartamento em frente ao Parcão. Há poucos anos, a filha Carmen Regina foi lhe fazer companhia. Se ao longo da história sua vida foi acelerada pelas novidades e inovações, hoje a centenária vive a tranquilidade de uma velhice em casa, sem muitas atividades.

– Levo uma vida parada, sentada em uma cadeira, olhando para frente e trabalhando o cérebro. Quase não saio, não aceito mais convites para chás e almoços pois minhas mãos e dedos não se mexem mais com agilidades, então prefiro ficar em casa – diz, serena.

E atribui os seus cem anos de vida ao tempo em que percorria a pé o trecho hoje tomado por avenidas no Moinhos de Vento, até o Morro do IPA.

– Nunca imaginei que chegaria tão longe.


luisa.medeiros@zerohora.com.br

Especial Centenários: Vivência e observação no Independência

15 de novembro de 2012 0

Até o dia 22 de novembro, o ZH Moinhos apresenta uma série de reportagens sobre os centenários que moram na região. Através de suas histórias, saiba como vivem e o que viram pessoas que atravessaram um século de história. Na terceira edição, que circula nesta quinta-feira, conheça Maria Marques Velho, 102 anos, moradora do bairro Independência.

LUÍSA MEDEIROS

O calendário marcava o ano de 1954 quando Maria Marques Velho, chamada de Nazinha desde os tempos de criança, viveu um episódio até hoje muito nítido em sua memória. Na manhã do dia 24 de agosto, a então jovem senhora saíra com uma de suas filhas para comprar tecidos no centro de Porto Alegre. Foi quando chegou à Capital a notícia do suicídio de Getúlio Vargas.
– Eu estava em uma loja na Rua Doutor Flores quando começou um quebra-quebra, com as pessoas muito revoltadas. As lojas tiveram de fechar as portas, e nós ficamos durante algumas horas presas dentro daquela loja – lembra.
Hoje com 102 anos, dona Nazinha recorda o episódio com a tranquilidade que lhe é peculiar – e até diverte-se ao narrar que “as moças corriam ao telefone para dar notícias às famílias, pois ninguém sabia direito o que estava acontecendo”. Tranquilidade provavelmente herdada dos longos anos que viveu no campo. Ela nasceu e cresceu em uma fazenda no interior de Mostardas, à época, município de São José do Norte.

Moradora do bairro Independência desde a década de 1980, tem suas primeiras recordações da Capital na época das visitas à avó, que morou na Rua Ramiro Barcelos. Nazinha ainda era muito criança, mas lembra que a região, hoje marcada por grandes edifícios, era repleta de fazendas. No lugar de incontáveis ônibus e carros nas grandes avenidas, estavam os veículos com tração animal.
– Quando minha avó queria sair, ela mandava chamar um cocheiro. O transporte era de carro de cavalo, só vários anos depois é que vieram os autos – narra.
Mesmo que tenha crescido com o ritmo lento da vida no campo, era frequentadora assídua dos animados bailes do Interior. Foi em um deles, aos 17 anos, que conheceu o marido, Djalma Raupp Velho. Casaram-se um ano depois, em 1928.
Os filhos começaram a chegar logo em seguida. A tranquilidade da fazenda, onde a família plantava arroz, é a explicação encontrada por dona Nazinha para a longevidade.
– Criei seis filhos sempre trabalhando para fora. Lá, eu fazia todo o serviço de dona de casa, inclusive costurava e cozinhava. Até ensinei as primeiras letras para os filhos – recorda.
E garante que não fez nada de especial pela sua saúde: sempre teve uma vida normal e uma alimentação sem restrições. A cozinha é, inclusive, um lugar especial para Nazinha. Uma das saudades que carrega consigo é a da convivência com o pessoal da fazenda e do tempo em que fazia suas famosas receitas, como o bolo de coalhada e as bolachinhas para serem levadas à praia.
Maria Marques Velho conta que a vinda para a Capital se deu em meados da década de 1970. Na época, as viagens eram frequentes em razão da formatura de uma das filhas e, em 1980, acabou ficando de vez após a morte do marido. Um ano depois, passou a morar no alto do Edifício Alegrete, um dos mais antigos do bairro Independência _ região apreciada por dona Nazinha pela beleza dos espaços verdes.
Com passos firmes e mãos ágeis, dona Nazinha dribla a passagem do tempo com determinação. Incansável, está sempre disposta às tardes de carteado com as amigas e conta, orgulhosa, que até valsa dançou no seu aniversário de 102 anos. A família também está sempre por perto: os filhos se revezam nas visitas para não deixar os 28 netos, 44 bisnetos e um tataraneto longe da matriarca.
No amplo apartamento com vista para a Praça Júlio de Castilhos, onde mora com cuidadoras, Nazinha manuseia com cuidado a linha e a agulha de crochê e comenta sobre um dos poucos incômodos causado pela idade:
– Não ando boa dos olhos, estou com um pouco de catarata e acho até que vou ter de operar. Mas nem sei se vale a pena – diz, aos risos.

FOTO: Adriana Franciosi

luisa.medeiros@zerohora.com.br

Especial Centenários: Uma vida em reclusão no Floresta

14 de novembro de 2012 0

Até o dia 22 de novembro, o ZH Moinhos apresenta uma série de reportagens sobre os centenários que moram na região. Através de suas histórias, saiba como vivem e o que viram pessoas que atravessaram um século de história. Na segunda edição, conheça Pery Branco, 101 anos, morador do Floresta.

LUÍSA MEDEIROS

Pery Branco nasceu em um tempo em que as notícias chegavam pelo jornal impresso, não por sites ou redes sociais. O telefone e o telégrafo eram as formas mais rápidas para conectar pessoas. E as comunidades não eram virtuais – mas sim totalmente presenciais, formadas pela vizinhança, companheiros de clubes e familiares.
Telegrafista aposentado, o morador do bairro Floresta observou, em seus 101 anos de vida, uma mudança radical na forma de se comunicar das pessoas. Viu chegar ao país as primeiras emissoras de rádio e televisão, na década de 1920. Acompanhou a popularização do telefone e sua evolução até os aparelhos celulares. Conheceu o computador e, com ele, o até pouco tempo antes inimaginável: uma rede virtual que ligaria as pessoas de qualquer ponto do planeta.
Talvez por ter acompanhado tantas mudanças neste que é considerado por muitos como o século dos extremos, Pery resolveu viver em reclusão. Aquele que tantas vezes aproximou as pessoas por meio do telégrafo, optou por não compartilhar de um tempo em que a maioria das pessoas vive em constante exposição. Recolheu- se num apartamento na ladeira da Rua Ramiro Barcelos. Convencê-lo a contar sua história não é tarefa fácil. E no quesito vídeo e foto, foi irredutível.
– Só quero ficar aqui, quieto, no meu canto – diz, escondendo- se atrás do jornal do dia.
O mesmo jornal que o maior companheiro de Pery nesses tempos de reclusão. A leitura diária é um hábito antigo, com especial atenção às notícias esportivas.
Colorado doente, anda meio descontente com seu time. Da grande janela que ilumina a sala simples, vê o intenso movimento de carros, caminhões e ambulâncias – e reclama do fato que, quando veio para a Capital, tudo era mais calmo e tranquilo.
Natural de Palmeira das Missões, o hoje centenário veio para Porto Alegre há cerca de 20 anos. Nos tempos de Interior, foi funcionário da Correios e Telégrafos e era o responsável pela telegrafia. Ele lembra que, à época, o telefone era artigo raro, então seu setor demandava muito trabalho. Mesmo com a consolidação das leis trabalhistas, ele conta que em 1943 havia poucos direitos e muitos deveres.

– Comecei a trabalhar muito cedo e não tinha nenhum tipo de benefício, como férias, 13 º salário ou hora- extra. Já tínhamos muito trabalho a fazer e, se por acaso alguém do setor faltava, tínhamos de acumular o serviço daquele que não tinha vindo. Agora, é tudo bem melhor para o trabalhador – avalia.
Por isso, afirma que a juventude não foi muito boa. A vida começou a melhorar após a aposentadoria, aos 55 anos, época em que veio com a mulher, Amazile, residir em Porto Alegre. Primeiro, o casal se estabeleceu na Rua Doutor Vale, bem pertinho de onde mora hoje, também no bairro Floresta. Somente anos mais tarde compraram o apartamento onde Pery reside atualmente.
E se hoje ele vive fechado em casa, muitos foram os passeios, sessões de cinema e viagens à praia durante os 71 anos de convivência com a mulher, falecida em 2009.
– Eu vivi muito a cidade. Eu andava muito por aí e ainda andaria, se não fosse essa perna – diz aborrecido, fazendo referência a um ferimento causado por um atropelamento há sete anos, quando atravessava a rua em frente de casa.
E como que num golpe à memória de tempos que não voltam mais, Pery se desfez de quase todas as fotos da juventude, logo após ficar viúvo. Apesar da saúde quase intacta, não se esforça para lembrar de datas ou dos tempos mais antigos. Ele só quer ficar quieto no seu canto.
Os sobrinhos são os filhos que Pery e Amazile não tiveram – coube a um deles o trabalho de organizar, sorrateiramente, a festa de aniversário de cem anos do tio.
Se não fosse assim, ele garante que nem iria participar.
– Se eu não tivesse perdido a minha esposa, com a saúde que eu tenho, podia ter chegado aos 110 anos! Mas não deu, ela se foi antes – lamenta, com os olhos espiando a foto de Amazile, uma das poucas que restaram na parede da sala.

luisa.medeiros@zerohora.com.br