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História da via férrea na Zona Sul (1) - A Ponta do Asseio

29 de março de 2010 12

Desenho de Hélio Ricardo Alves mostra como era feito o despejo na Ponta do Melo – Foto: Reprodução

No finalzinho do século 19, começou a funcionar em Porto Alegre uma linha férrea que servia aos bairros margeados pelo Guaíba. Também conhecida por Estação Ferroviária do Riacho, porque ficava a beira do Arroio Dilúvio, a linha do trem foi muito importante, pois além de transportar passageiros e cargas, constituía um dos melhores passeios turísticos de Porto Alegre.

Relato interessante sobre essa pequena estrada de ferro foi o de Augusto Meyer, escritor, jornalista e contemporâneo do trem. Em sua obra No Tempo da Flor, citado na Pequena Antologia do Trem, Meyer traz lembranças da ferrovia na década de 20: “A grande animação, no Largo da Tristeza, era o trenzinho das cinco. Ficava a estação ao lado da velha Ponte do Riacho, e parece que ainda estou no Beco do Império, picando o passo, ao ouvir o primeiro apito. Ladeira abaixo, somos alguns retardatários, em cima da hora. Mas o trenzinho, com mais apito e fumaça do que pressa, levará muito tempo a decidir-se, arrastando a sua sina pela Praia de Belas“.

Inicialmente, a linha do trem foi utilizada para transportar os cubos malcheirosos provenientes das casas dos arrabaldes que não tinham esgoto. Portanto, tinha uma função essencialmente sanitária. O trajeto percorrido por esse material ia até a chamada Ponta do Asseio ou Ponta do Melo, onde hoje se encontra o Estaleiro Só, no bairro Cristal. Em tempos mais remotos, esse material viajava até outra ponta, a do Dionísio, no bairro Assunção. Dentro dos vagões, iam grandes cilindros, com todo o conteúdo fedorento.

Esses cubos, fornecidos pela Intendência Municipal de Porto Alegre, eram colocados sob a tábua de assento dos banheiros da época para serem usados e, depois de cheios, eram encaminhados até a estação do trem mais próxima. Logo que chegava ao seu destino, o conteúdo dos cubos era prensado e descarregado diretamente no rio. Os mesmos cubos, ou cabungos, que levavam os dejetos, após serem descarregados e limpos com creolina, faziam a viagem de volta.

Conforme Sérgio da Costa Franco, “o asseio público deixou suas marcas nas tradições da cidade. Como Ponta do Asseio ficou popularmente conhecida a Ponta do Melo, como Lomba do Asseio a ladeira que ligava aquela ponta à Avenida Padre Cacique. Cabungos e cabungueiros são tristemente lembrados pelos mais velhos”.

* Por Janete da Rocha Machado, Conselho de Blogueiros

> Acompanhe a segunda parte da história do trenzinho da Zona Sul nos próximos dias, aqui no Blog do ZH Zona Sul

Comentários (12)

  • Délcia Prates diz: 30 de março de 2010

    Quando leio estas matérias dos nosso bairros,me pergunto do porque não aprendemos isto na escola.Ao que me lembro era só decoreba de datas,nomes e tudo girava em torno do descobrimento do Brasil,escravidão etc,etc.
    Nunca tive aula de história de minha cidade…deveria ter uma disciplina contando como nasceu realmente Porto dos Casais,nossa Porto Alegre e suas nuancias,cheiros e cores.
    um abraço

  • Sérgio Valverde diz: 30 de março de 2010

    Boa Noite,

    Hoje estou morando longe da minha bonita e agradável Porto Alegre, moro em Curitiba, vivo com saudades da minha terra, quando vejo uma reportagem destas, acabo viajando no tempo, volto aos meus 8 a 12 anos de idade no início dos anos 70 quando morava na Cavalhada, as vezes tento matar saudades vendo os mapas da cidade por satélite, quanta coisa mudou, mas na minha mente tudo continua como está, meu colégio Roque Gonzalez na Cavalhada, a ponte do arroio Cavalhada, a CECOPAM, as brincadeiras com os amigos, quanta nostalgia é melhor eu parar pois esta reportagem de vocês além de ótima, excelente é emocianável, continuem assim..Parabéns

    Abraços a todos e muita saudades da minha amada Porto Alegre-RS

  • Janete diz: 1 de abril de 2010

    Délcia, no Projeto PESCAR, onde faço um trabalho voluntário, ensino História de Porto Alegre. Meus alunos, todos adolescentes do ensino médio, gostam e pedem esse assunto. É gratificante poder dividir os resultados de minhas pesquisas com os alunos. Mas você tem razão, nas instituições formais de ensino, esse tema não é contemplado, infelizmente, pois muito se perde da nossa história e da nossa memória. Um abraço e novamente obrigada pelos depoimentos. Janete

  • ZH Zona Sul » Blog Archive » História da via férrea na Zona Sul (2) – Trilhos até a Tristeza diz: 5 de abril de 2010

    [...] > História da via férrea na Zona Sul (1) – A Ponta do Asseio [...]

  • alberto oliveira diz: 11 de julho de 2010

    Já li muitas matérias e de várias fontes, que versam sobre a via férrea da zona sul, estação do riacho, ponte de pedra, etc…Mas nunca consegui fotos antigas da vila dos ferroviários, e oficinas que haviam do outro lado da ponte de pedra. Até o início da década de 60 ainda estavam lá; depois o aterro tragou tudo aquilo…Morei naquela vila, com parente funcionário da extinta VFRGS. Eu era criança, e nunca pensei que aquela região da cidade desapareceria…E aconteceram fatos deveras interessantes, quando eu já adulto, comecei a procurar pessoas que comigo haviam morado naquele lugar, até por nostalgia, para conversarmos sobre o passado, por incrível que pareça, a maioria já faleceu, alguns poucos que encontrei, não tinham nenhuma foto da época…Nem na memoria do trem, sito na estação de S. Leopoldo. Pela internet, até referências erradas de datas, quando há relatos da estação do riacho…O que posso relatar daquela época, está exclusivamente na minha memória. Até alguns blog’s, como o “Habitantes do Arroio” , onde uma equipe de pesquisadores da URGS, foram à campo para traçarem o histórico trajeto na nascente à foz do hoje arroio Dilúvio, e toda mudança que houve na cidade, com o advento do aterro (dos aterros) que ao longo do trajeto deste referido arroio, do social, do urbano e histórico principalmente na área do centro-cidade baixa, no entorno da ponte de pedra, já postei comentários que traziam alguma luz ao tema…Portanto solicito matéria com fotos, sobre o que exponho, pois acredito que os senhores da Zero Hora, seriam mais habilitados a conseguirem mais material de pesquisa, do que eu, que fui até no museu de Porto Alegre, e parece que aquele cantinho do centro não existiu. Meu e-mail: albertoxerife@gmail.com //albertomoliveira@hotmail.com.br Alberto Oliveira

  • Gilberto Domingues Werner diz: 18 de setembro de 2010

    Assim como escrevi obra relatando os cem anos do início da canalização do Arroio Dilúvio, com depoimento inclusive do engenheiro Leopoldino A. Borges (CREA 7166), responsável pela obra, em 1950, resolvi fazer o mesmo com a história do Trenzinho da zona sul. Meu intuito será o de divulgar e resgatar esta maravilhosa história (que me relatava minha avó), nas escolas dos bairros dos bairros que a vivenciaram.

  • Gilberto Domingues Werner diz: 15 de novembro de 2010

    O livro ¨Os caminhos que levam a Zona Sul¨ esta pronto.É a história do ¨Trenzinho da tristeza¨ que originou a formação dos bairros Cristal, Vila Nova,Tristeza,Vila Assunção e Vila Conceição.Possue 20 fotos históricas e texto que resgata a história das origens destes bairros.Deverá ser patrocinado pela iniciativa privada e distribuido nas escolas destes bairros em questão. Acredito que, sendo assim, esta geração irá aprender e talvez compreender que tudo possue fundamento e precisa ser respeitado como tal.

  • Muriel Bulsing diz: 22 de janeiro de 2012

    Não encontrei o livro ¨Os caminhos que levam a Zona Sul¨ para comprar Gilberto, onde posso adquiri-lo?

  • Artur Wilkoszynski diz: 25 de fevereiro de 2012

    Ainda nos anos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS (1987/1992) desenvolvi, sob orientação da Profª Célia Ferraz de Souza, uma extensa pesquisa sobre a Estrada de Ferro do Riacho, ou “Trem da Tristeza”, como ficou popularmente conhecido. Este estudo utilizou-se de relatos e fontes primárias (bibliografia, dados oficiais, etc) e, através dele, conseguimos resgatar o traçado original, ampliações/extensões da via e sua progressiva mudança de função. As imagens eram raras, mas hoje, em tempos de internet, a informação passa a circular mais fluidamente. Os relatórios desta pesquisa estão disponíveis na biblioteca da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e, eventualmente, na biblioteca central. Ressalto aqui a importância de sempre citar-se as fontes das informações, como preconizam a boa ética e o trabalho científico.

  • Janete diz: 24 de abril de 2012

    Meus estudos sobre a Zona Sul de Porto Alegre iniciaram em 2008, na ocasião cursava a graduação em história na PUCRS. Atualmente como mestrando no curso de pós-graduação também em história pela PUCRS, desenvolvo pesquisas na área da história cultural, imagens e cultura urbana com a temática “Ipanema: história e memórias de um bairro da Zona Sul de Porto Alegre. De lá p/cá foram muitas produções, entre elas, artigos, resenhas, TCCs (2), publicações em jornais e revistas (cadernos e eletrônicas). No caso específico da história da Via Férrea, cujo trenzinho ligava o centro aos bairros da Zona Sul, os resultados da pesquisa foram publicados pela universidade em junho de 2010 na “Oficina do historiador, EDIPUCRS (abaixo disponibilizo o link para que possam ser visualizadas na íntegra as fontes bibliográficas). Existem outros trabalhos publicados sobre o assunto, o campo é vasto. Um deles é a dissertação de mestrado de um colega da UFRGS André Huyer, intitulada “A Ferrovia do Riacho: um caminho para a urbanização da zona sul de Porto Alegre” e que foi defendida no final de 2010. Um excelente trabalho, diga-se de passagem. São muitas as possibilidades de pequisa e fontes. Acho que todas são válidas e importantes, fundamentais para se conhecer o passado da cidade.
    Janete da Rocha Machado
    Historiadora
    http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/oficinadohistoriador/article/view/7013
    Visite meu blog: http://janeterm.wordpress.com/

  • Artur Wilkoszynski diz: 9 de maio de 2012

    Prezada Janete, haja vista a complementaridade da pesquisa e do trabalho científico, sugiro a leitura do artigo publicado no livro “Imagens Urbanas: os diversos olhares na formação do imaginário urbano”, que aborda a história do bairro e do Trem da Tristeza, sob o prisma do imaginário urbano:

    WILKOSZYNSKI, Artur C. Tristeza: a imagem que formou sua imagem. In: SOUZA, Célia F. e PESAVANTO, Sandra (Org.). Imagens Urbanas: os diversos olhares na formação do imaginário urbano. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1997. p.181-188

    Artur Wilkoszynski
    Arquiteto e Urbanista
    Mestre em Planejamento Urbano e Regional
    Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo Unisinos

  • Gilberto Werner diz: 11 de maio de 2012

    Então vou falar da minha desilusão ao tentar resgatar e publicar as origens e a história da formação dos bairros da zona sul de Porto Alegre. Este tão bonito, charmoso e por vezes até bucólico lado da cidade de Porto Alegre. Acumulei uma centena (100) de fotos e textos da zona sul e tentei apresentar em exposição esta história maravilhosa. Em algum shopping em algum local. E sabem o que aconteceu? Nada! Ninguém, nenhuma marca, nem estabelecimento aproveitou este acervo para mostrar toda esta história para esta geração. Então, desiludido, passo pelos bairros e vejo as pessoas sem as suas sombras…

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