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História da via férrea na Zona Sul (2) - Trilhos até a Tristeza

05 de abril de 2010 13

Trem na estação do Riacho, em desenho de Marcos Fallavena – Foto: Reprodução

No início do funcionamento do trem para a Zona Sul, a tração era animal. Mais tarde, foi substituída por trens a vapor. Assim nos dizia um anúncio de um jornal da época: “Espera-se que até dezembro esteja aberta ao tráfego a estrada de ferro à Ponta do Dionysio, obra contratada pela Intendência Municipal com o Sr. Gaspar Guimarães e o Dr. Luiz Caetano Ferraz. O percurso total da linha é de dez quilômetros, já estando seis com o respectivo leito preparado e os ramais em adiantado preparo. As locomotivas já se acham nesta capital,e, segundo nos informam, denominar-se-ão Progresso e Rosa, nomes escolhidos pelo digno empreiteiro Dr. Luiz Ferraz. Os trilhos estão no Rio Grande, em viagem para aqui. A plataforma da estação do Riacho vai muito adiantada, devendo em pouco tempo estar pronta. Teremos, pois, brevemente, uma via-férrea  contornando, em grande parte, a belíssima baía do Guaíba“.

O “trenzinho”, como era conhecido pela população, trafegava lentamente, passando por diversos bairros da Capital, entre eles, o Cristal, a Assunção, a Tristeza, a Vila Conceição e a Pedra Redonda. O início da linha podia ser na Estação da Ponte de Pedra, na Cidade Baixa, ou na Estação Ildefonso Pinto, perto do Mercado Público, no Centro. Durante a semana, o trem tinha dois horários de saída: às 8h e às 16h30min. Nos domingos, quando a procura era maior em função dos banhos no Guaíba e dos piqueniques na praia, saíam em mais horários, um às 10h e outro às 14h, e o preço da passagem era de aproximadamente 400 réis.

Além dos passageiros que viajavam com seus pacotes e maletas, o trem também transportava pedras da Ponta do Dionisyo (hoje, o Clube Veleiros do Sul), para a construção do Cais do Porto. Em torno de 1925,  o então presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, decidiu dar início a grande obra no cais. Sendo assim, muita pedra foi levada das pedreiras da Zona Sul ao Centro.

Quem utilizava o trenzinho, sentia que era uma viagem segura e tranquila pela baixa velocidade dos vagões. A Maria-Fumaça percorria caminhos diversos e apesar de ser chamado de “o trem da merda”, ainda assim, era divertido e bonito o passeio pelas ruas de Porto Alegre.

Nos primeiros anos de funcionamento, o trem vinha somente até a Ponta do Dionysio, hoje Vila Assunção. Com o passar dos anos, a via foi estendida até o bairro Tristeza, e, em 1912, até a praia da Pedra Redonda. Esse prolongamento da via só foi possível graças a um empreendimento particular, sendo mais tarde adquirida pelo Estado e incorporada à Via Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS).

Tal empreendimento resultou em um grande desenvolvimento à Zona Sul, transformando-a em área nobre da cidade com suas casas de veraneio, seus hotéis e restaurantes. O bairro Tristeza é um exemplo desse progresso, conforme nos conta Pellin em suas crônicas sobre o antigo arrabalde: “Tristeza progredia, habitada agora pela elite porto-alegrense e por famílias estrangeiras, que vêem nascer a nova praia de frente para o sul, a Pedra Redonda”.

Para o trem chegar até a Praia da Pedra Redonda, foi preciso um grande investimento e muitas obras foram feitas envolvendo escavações e explosões no morro onde hoje se encontra a Vila Conceição. Grande quantidade de pedra e parte da mata foi retirada da região para que a estrada de ferro pudesse ser construída. Um fosso de granito com 800 metros de comprimento por 10 metros de altura foi escavado desde o início da vila até a beira da praia, criando um grande paredão por onde passava o trenzinho. A obra no morro durou cerca de três anos.

*Por Janete da Rocha Machado, Conselho de Blogueiros

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> História da via férrea na Zona Sul (1) – A Ponta do Asseio

Acompanhe a última parte da história do trenzinho da Zona Sul nos próximos dias, aqui no Blog do ZH Zona Sul

Comentários (13)

  • Catarina Tolotti diz: 6 de abril de 2010

    Sem dúvida, a Maria-Fumaça marcou uma época sui generis na ainda pacata Zona Sul de Porto Alegre. Fico imaginando como não deveriam ser divertidos os passeios e os costumes de um tempo que, felizmente, graças à pesquisa, não se dissolveu no ar, tal qual a fumaça do trenzinho da Pedra Redonda. Catarina.

  • Régulo Franquine Ferrari diz: 9 de abril de 2010

    Cara Janete

    Sou arquiteto, trabalho na EPTC e pesquiso o transporte em Porto alegre.

    Não há nenhum registro de que tenha sido utilizada tração animal nessa linha. O texto que transcrevestes não permite afirmar isso.

    Mais tarde vou te repassar os diversos trechos e usos da E. F do Riacho, que foi extendida aos poucos – no início ia até a Ponta do Asseio, depois até a Tristeza, depois foi levada até o Mercado, criado o ramal para a Vila Nova e estendida até a Pedra Redonda.

  • Janete Machado diz: 11 de abril de 2010

    Sr. Ferrari. Os textos que envio ao BLOG ZH Zona Sul são construídos a partir de pesquisas em documentos muito confiáveis. Neste caso específico, sobre o trem, utilizei as seguintes bilbiografias: “As ferrovias do Brasil” de Gerodetti e Cornejo e “Porto Alegre, Guia Histórico” de Sergio da Costa Franco, um grande historiador. Os locais em que pesquiso, são, basicamente, dois: O Arquivo Público e o Museu de Comunicação de Porto Alegre. Para complementar meu dados, pesquiso ainda em jornais muito antigos, entre eles a própria ZHora e o Correio do Povo (este do final do século XIX). E para não esquecer ninguém, ainda tem os artigos/anúncios da Revista do Globo do início do século XX. Mas, com certeza, gostaria muito de sua contribuição, já que é pesquisador também das coisas da nossa Zona Sul. Obrigada. Um abraço. Janete Machado

  • Délcia Prates diz: 11 de abril de 2010

    Oi Sr. Ferrari,estou acompanhando as matérias da sra. Janete e creio que ela não se equivocou,não ao relatar que os trens era de tração animal
    Fiz uma pesquisa rápida no google e achei o artigo abaixo.
    Leia com atenção e verás que os trens no inicio do seu funcionamento era sim com tração animal.
    Reproduzi uma parte pois o artigo é muito grande.
    Um abraço

    E. F. do Riacho (1900-1938)
    V. F. Rio Grande do Sul (1938-1966)
    RIACHO
    Município de Porto Alegre, RS
    Linha de Tristeza – km RS-2120
    Inauguração: 14.01.1900
    Uso atual: demolida sem trilhos
    Data de construção do prédio atual: 1900 (já demolido)

    HISTORICO DA LINHA: A E. F. do Riacho foi aberta em 1899 para o transporte de cubos entre o bairro do Riacho e do Asseio. Estes cubos eram feitos a partir de matéria excrementosa que deveria ser prensada e despejada no trapiche da Ponta do Mello. A partir de 1900, a ferrovia passou a transportar também passageiros, bagagens e mercadorias. A tração era animal, passando para trens a vapor aparentemente nos anos 1910. Em 1912, a linha foi estendida até a praia de Pedra Redonda. Em 1924, levou-se a linha até o cais do porto para transportar pedras para as obras desse cais. Em 1926, foi aberto também um ramal para Vila Nova. Em seguida, em 1927, a linha foi levada até a recém-inaugurada estação de Ildefonso Pinto, que também se ligava com a estação central de Porto Alegre e de onde também saíam trens da VFRGS para o interior do Estado. Os guias de horários ainda acusam trens entre as estações de Riacho e de Pedra Redonda, passando por Tristeza, em 1932, mas já não os acusam em 1938. Attila do Amaral afirma que a linha passou para a administração da VFRGS em 1938 e que nessa época a extensão total de suas linhas era de 13,770 km. Também diz que essa linha foi erradicada somente em 1966.

  • Elizabeth Torresini diz: 12 de abril de 2010

    Janete, meus cumprimentos pela importante pesquisa sobre a viação férrea na Zona Sul. Desejo que elabores outros trabalhos com a mesma qualidade, publicando-os e contribuindo para o registro da História e da memória social local.

    Um abraço,

    Elizabeth WR Torresini
    Professora e historiadora

  • Régulo Franquine Ferrari diz: 14 de abril de 2010

    Caras Délcia e Janete

    É um prazer debater esse assunto, que me leva à minha infância, quando brincava na locomotiva Porto Alegre, na Redenção, a qual só recentemente fiquei sabendo que pertenceu a essa ferrovia. Desconhecia a existência da ferrovia e me intrigava a localização da locomotiva… Não consegui descobrir até hoje para onde foi levada após a retirarem da Redenção.

    Sem desmerecer o ótimo trabalho do Ralph Mennucci Giesbrecht no site Estações Ferroviárias, não conheço nenhum texto que embase essa afimação de tração animal. O sistema sempre foi tratado como “ferrovia”, o que me faz supor que se tratasse de máquinas a vapor rodando sobre trilhos. E no site do Ralph há vários detalhes que estão incompletos e até incorretos.

    Fui levado a pesquisar o assunto História do Transporte em Porto Alegre pela própria carência de material existente. No caso específico da E. F do Riacho, tomo como base o texto do Sérgio da Costa Franco no Guia Histórico e procuro informações adicionais em publicações antigas e relatos posteriores.

    No verbete “Estrada de Ferro do Riacho” consta:
    - 20/09/1894 – início das obras
    - 1896 – inaugurada, com percurso entre a Ponte de Pedra (atual Largo dos Açorianos) e despejo na Ponta do Dionísio, na atual Vila Assunção
    - 1898 – enchente destruiu boa parte dos trilhos
    - 1899 – reconstrução, com despejo na Ponta do Melo (área onde mais tarde se instalaria o Estaleiro Só)
    - 14/01/1900 – inauguração do ramal até a Tristeza, com 800 metros
    - 17/10/1926 – Ramal à Vila Nova
    - 1927 – inauguração da Estação Ildefonso Pinto
    - 1926 a 1930 – arrendamento a empresas de construção (o ramal entre o porto e a Vila Nova visava o transporte de pedras)
    - 1934 – encampação pela VFRGS

    Quanto à desativação da ferrovia, existem muitas informações imprecisas, mas encontrei as seguintes fontes da época:
    No “Catálogo Geral da Exposição Farroupilha”, de 1935, ainda consta a linha entre a Estação Ildefonso Pinto e a Pedra Redonda, com saídas de “auto-linhas” (provavelmente carro-motor movidoa a diesel) a cada meia hora. As sessões são:
    - Riacho $300
    - Menino Deus $300
    - Ponta do Melo (valor ilegível)
    - Cristal $600
    - Tristeza 1$000
    - Pedra Redonda 1$000

    No livro “Aspectos Gerais de Porto Alegre”, de 1945, no item que fal do assunto, sob o título “A Estrada de Ferro do Riacho em 1940″ consta o seguinte texto “Quando foi suspenso o tráfego dessa estrada, que estava sendo realizado por ordem do Governo do Estado,; os prejuízos com essa exploração se elevavam a Cr$ 1.192.812,20 (…)”, o que leva a supor que funcionou até 1940.

    Abraços
    Régulo

  • Ralph M. Giesbrecht diz: 14 de abril de 2010

    Em um trabalho de 14 anos já – faço o site http://www.estacoesferroviarias.com.br -, não consigo, infelizmente, achar as fontes que me levaram a afirmar que a tração da E. F. do Riacho era animal entre 1899 e 1910. Pode ter sido uma interpretação do que está escrito no livro de Átila do Amaral, Transporte Ferroviário no Rio Grande do Sul, sem data, p. 73: “A 13/11/1899, iniciava-se o transporte de cubos, por essa via férrea e o seu despejo no trapiche da Ponta do Mello. Mais tarde, atendendo a solicitações dps moradores da Tristeza, construiu-se um ramal de 800 m e uma estação no ponto terminal do referido bairro, cujo tráfego inaugurou-se em 14/1/1900, abrangendo o transporte de passageiros, bagagens, mercadorias e cubos. O número de assinantes, em 1901, era de 5889, dispondo-se para o serviço de 6.342 cubos e de 43 animais para a tração dos veículos”. Isso, no entanto, não explica dizer que o transporte por tração animal teria durado até 1910, como está no texto copiado acima por Délcia.

  • Régulo Franquine Ferrari diz: 16 de abril de 2010

    O livro do Attila do Amaral é de 1970.

  • Janete diz: 16 de abril de 2010

    Gostaria de agradecer por tantos e importantes comentários acerca do nosso Trenzinho da Zona Sul. As divergências de opiniões são saudáveis. Elas existem até mesmo entre os historiadores. Mas o que fica é a certeza de que todas essas (valiosas) informações, aqui depositadas, servirão muito para as minhas pesquisas, estimulando a busca por mais dados. Obrigada novamente e obrigada a equipe do ZH Zona Sul por essa oportunidade. Um abraço fraterno a todos. Janete

  • Stephanie Bexiga diz: 5 de maio de 2010

    Janete,

    Há dois anos desenvolvo uma pesquisa na area de Antropologia Urbana, problematizando a questao da memória coletiva e dos laços sociais fundados entre habitantes da Tristeza vinculado ao trabalho nas pedreiras, relação que só construí após ouvir as narrativas de meus interlocutores. Enfim, tenho acompanhado o blog há algum tempo e gostaria de saber se tu tens outras publicaçoes (no ambito academico, etc) para que eu possa conhece-las, pois me interessa bastante…
    Obrigada pela atençao.

  • Janete diz: 7 de maio de 2010

    Oi Stephanie. Pesquiso o bairro Ipanema desde 2006, que é onde resido desde 1970. Sobre a Tristeza, infelizmente, não poderei te ajudar. Mas acredito que vc poderá encontrar muita informação sobre esse bairro nos livros do PELLIN – Revelando a Tristeza (I e II). Sobre minhas publicações, na Internet, pode acessar: http://proprata.com/producao-academica/janete-da-rocha-machado.
    ou http://caioba.pucrs.br/teo/ojs/index.php/graduacao/article/view/2781/2123.
    Um abraço. Janete

  • Alberto Oliveira diz: 21 de agosto de 2010

    Oi Janete! Primeiro reintero agradecimento ao envio de foto sobre a vila de ferroviários, onde morei na década de 50 (século passado). O assunto em questão “Historia da via férrea da zona sul”, que estas ainda em pesquisas, pois se avolumam comentários sobre dados baseados em outras leituras, comentários esses, que só fazem por valorizar teu trabalho a bem da história desta cidade. Porto Alegre carece de pessoas como tu, que vai a campo atraz de subsídios para repaginar uma história que estava caindo no esquecimento…Até no afã de registrar acontecimentos de antanho, e na melhor das intenções, pessoas escrevem coisas baseadas em relatos às vezes pouco confiaveis, o que não é o teu caso, pois é o que prova tuas fontes. Como eu disse, morei numa vila que havia do outro lado da ponte de pedra, anexa às oficinas da então VFRGS, de onde meu tio era funcionário (foi) administrativo, de a muitos anos. E dos operários das oficinas, ainda em atividade na época, ouvi relatos sobre aquelas instalações, máquinas, ferramentas, e até sobre como era o tempo dos trens que faziam o trajeto até a tristeza, e como foi acabando tudo aquilo, na visão dos operários…Tudo isso confirmado pelo meu tio, que como eu disse, era administrativo, locado no 3º andar do Palacio do Comércio, onde era localizado a presidência da VFRGS! São muitas estórias da história! Por enquanto, um abraço fraterno, para ti guria.

  • Pauo Medina diz: 2 de março de 2012

    Janete

    Este trecho não foi interpretado corretamente: “O número de assinantes, em 1901, era de 5889, dispondo-se para o serviço de 6.342 cubos e de 43 animais para a tração dos veículos.” Este é o número de assinantes do serviço de coleta dos cubos através da cidade e transporte até a ferrovia, coleta esta que se fazia com veículos de tração animal pela ruas da cidade; o transporte dos cubos pela ferrovia sempre foi feito por locomotivas.

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