O português Antonio Maria Marques Pinheiro, que chegou ao Brasil há mais de cinco décadas, é especialista em quebrar estereótipos. Para quem acha que um homem de 75 anos tem de estar em casa, descansando após uma vida inteira de labuta, ele mostra que pode trabalhar com prazer na empresa que construiu. Aos que duvidam da existência de um septuagenário em plena atividade física, ele exibe a boa forma correndo maratonas no Brasil e no Exterior.
Munido com uma carta-convite de um tio que vivia em Porto Alegre, Pinheiro deixou a terra natal em 1959,a bordo de um navio. O caminho, percorrido em pouco menos de 10 dias, o levou a São Paulo e, em seguida, ao Rio Grande do Sul. Na bagagem do jovem de 22 anos, veio a experiência de ter trabalhado como agricultor e padeiro.
— A gente, quando vem para cá, quer melhorar de vida e voltar. Mas eu acabei me adaptando e me considero brasileiro também. Inclusive, tenho dupla nacionalidade.
Aqui, Pinheiro começou a ganhar a vida como copeiro em uma lancheria na Rua Sarmento Leite. Chegou a ter o próprio bar, na Rua Riachuelo, até abrir um restaurante — o Pampulha, que funcionou na Avenida João Pessoa até o dono da sala pedi-la de volta. E foi aí que a vida profissional do português deu uma guinada. Quando decidiu construir um prédio para
instalar o restaurante, Pinheiro encontrou a ferragem onde compraria o material para a obra fechada. Foi nessa situação que enxergou a oportunidade de uma vida mais tranquila.
— No restaurante, eu trabalhava até de madrugada.
Em 1981, era inaugurada a ferragem da Avenida Icaraí onde trabalha até hoje. Por muito tempo, atuou atrás do balcão, mas um problema de audição o afastou do atendimento ao público.
— Agora, eu fico no andar de cima. Cuido da compra dos materiais e pago as contas todas pela internet.
Das várias idas a Portugal desde que chegou a Porto Alegre, Pinheiro destaca uma. Em meados de 1967, durante uma viagem à "terrinha", casou-se com a também portuguesa Maria Cândida, hoje com 72 anos. Mas com uma peculiaridade:
— Como fui para passar quatro meses, não deu tempo de fazer a cerimônia religiosa. Meu pai teve de me substituir na igreja.
Sua história com o atletismo começou na mesma época em que abriu a ferragem na Avenida Icaraí. No início da década de 80, habituado aos exercícios na academia, foi estimulado por um representante de vendas a começar a correr. Inscreveu-se em uma competição de 10 quilômetros e conseguiu completar a prova. Hoje, faz ginástica de segunda a sexta e, três vezes
por semana, faz treinos de corrida no início da noite, às margens do Guaíba.
— Não sei exatamente quantas provas eu fiz, mas foram no mínimo 30.
A última maratona da qual participou foi aos 71 anos, na Capital. Pretendia repetir a dose em 2012, mas um problema no joelho o impediu. No currículo, conta com competições internacionais — a de Paris foi a que ele mais gostou.
— Em Chicago, não suei nem um minuto, de tão frio. Estava - 5 °C.
Pai de três filhos (um morto em acidente), Pinheiro mora há 34 anos na Rua Chiriguano, na Vila Assunção. Como aprendizado, carrega uma frase:
— Se quer trabalhar, vai vencer.

















