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Um bate papo com Helga Landgraf Piccolo, historiadora e moradora da Vila Conceição

14 de fevereiro de 2013 3



Foto: Tadeu Vilani, BD

Helga Landgraf Piccolo, primeira doutora em História no Estado e moradora da Vila Conceição | Foto: Tadeu Vilani, BD




Texto enviado pela blogueira ZH Zona Sul Janete da Rocha Machado


Blogueira do ZH Zona Sul e dedicada a recuperar a história da região, a historiadora Janete da Rocha Machado entrevistou a professora Helga Landgraf Piccolo, primeira doutora em História no Estado e moradora da Vila Conceição. Helga nasceu em Porto Alegre em 1932, formou-se em História e Geografia pela UFRGS e concluiu o doutorado em História Social pela USP em 1972. Possui uma produção bibliográfica de mais de 130 obras e é pesquisadora emérita do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ). Nesta conversa, as moradoras trocam figurinhas sobre os primórdios da Zona Sul. Confira a integra.


Janete da Rocha Machado — Professora Helga, entrando um pouquinho na história do seu bairro, a Vila Conceição, qual é a origem da maior parte das famílias da Tristeza? São italianos?

Helga Landgraf Piccolo — É. Mas isso foi por um curto espaço de tempo, pois quando eu vim para cá, em 1945, eu diria que de cem famílias, 90 eram alemãs.


Janete — Aqui na Vila Conceição?

Helga — Aqui na Conceição. Porque os italianos, na realidade, instalaram-se do outro lado da Avenida Wenceslau Escobar. Era uma coisa interessante: os alemães do lado de cá, do lado do Guaíba, e os italianos do lado de lá, principalmente porque eles eram agricultores.


Janete — Minha pesquisa abrange também a Pedra Redonda e Ipanema, porque falo sobre o veraneio no Guaíba na primeira metade do século 20. E lá, na Pedra Redonda, a maior parte das famílias é de origem alemã, como os Dreher, os Bier, os Becker, os Meyer, entre outros.

Helga — Os Dreher, todos nós conhecemos. Ali na Pedra Redonda são muitos. É alemão pra mais de metro.


Janete — A senhora veio da Alemanha?

Helga — Não, eu sou brasileira. O meu pai e a minha mãe eram alemães e vieram para o Brasil em 1923. Primeiro, ficaram em um chalé ali perto do Hospital Moinhos de Vento. Depois, ele construiu um chalé no Menino Deus, perto do campo do Internacional. Depois disso, meu pai construiu essa casa grande aqui ao lado que eu dei para o meu filho. Do Menino Deus, eu vim para cá. Meu pai comprou um terreno enorme aqui. Para minha filha, comprei de outro alemão, ali na Rua Apolinário Porto Alegre. Quer dizer, eu moro mais tempo aqui, porque eu vim em 1945, morar com meus pais. Em 1955, eu casei e vim residir nessa propriedade.


Janete — Eram casas de veraneio ou já eram de moradia?

Helga — Eram de veraneio e de moradia. Não havia ruas à beira do Guaíba. Por isso, a região não era local de veraneio como Ipanema e Pedra Redonda. Mas, lá embaixo, perto do rio eram mais de veraneio. Lá tem a famosa Prainha da Conceição. Nós tomávamos banho nessa prainha. Principalmente porque aqui havia muita falta de água, e nós descíamos a rua e íamos de toalha e sabonete, todos juntos tomar banho na praia. A água do Guaíba era limpa. A Prainha era também lugar de namoro. A turma namorava lá à noite. Ela é conhecida também por isso. Tempo bom aquele!


Janete — Fiz uma pesquisa sobre os primórdios da Vila Conceição e surgiu o nome de Guilherme Ferreira de Abreu. Depois dele é que vieram os padres palotinos, que eram italianos. Eles vieram para dar aquele primeiro atendimento aos imigrantes italianos da Tristeza. Por isso, a ideia de que a população do bairro era originalmente de italianos. Mas aí a senhora me traz um dado novo: de que os alemães estão em massa aqui na região.

Helga — É, os alemães estão em massa aqui.


Janete — Tempos depois, os padres palotinos venderam a chácara para Antônio Monteiro Martinez, confere?

Helga — O meu pai comprou as terras dele. Ele vendeu para todo mundo aqui. Ele loteou as terras em 1930. O meu marido tem a planta da Vila Conceição com o loteamento. O senhor. Martinez era um português, e a mulher dele era muito devota de Nossa Senhora da Conceição, por isso o nome do loteamento de Vila Conceição. Depois dele, veio o filho, o Mário. E o neto, o João Antônio, era o nosso amigo. A propriedade em que residiu a família dos Martinez fica na Avenida Nossa Senhora Aparecida, mas já não é mais da família. Outra coisa interessante é que a família dos Winge, mesmo sendo de alemães, porém colonos, ficou do outro lado. Essa família trouxe as técnicas da floricultura da Alemanha e, hoje, o empreendimento é administrado pelos netos. O Winge comprou terras para mais de metro, como a gente costuma dizer.


Janete — Assim como o Wenceslau e o Otto, né?

Helga — É. Eram terrenos que pertenciam à Santa Casa de Misericórdia. Hoje em dia tem muitos moradores novos. Antigamente, todo mundo se conhecia. Nós tínhamos uma associação dos moradores da Vila Conceição. Jogava-se vôlei — tem até a cancha. O trenzinho descia por aqui e chegava até onde é hoje a Sociedade de Engenharia.


Janete — Quando a senhora veio morar aqui, em 1945, costumava receber os amigos para usar o Guaíba como recreação?

Helga — Em 1955, eu já tinha me formado na universidade. Volta e meia eu convidava a turma para vir aqui. Além disso, meu marido, a turma daqui e eu também íamos ao Guaíba. Iam até com os cachorros para dentro d’água. A Prainha era uma joinha. Infelizmente, devido à poluição, não está mais sendo usada pra banho como praia.


Janete — Quase toda a orla do Guaíba deixou de ser usada em 1970 com a poluição.

Helga — É, mas Ipanema continuou. É impressionante a gente ver Ipanema com banhistas ainda hoje. Eu não posso te dizer quando foi que deixamos de usar o rio. Porque a nossa família toda é de iatistas. Então tu achas que quando a turma ia para o rio não pulavam dentro da água? Até eu velejei. Eu me lembro que a última vez que corri uma regata eu estava grávida. O que aconteceu é que a beira da praia foi o local que as pessoas deixaram de usar. Quando vim morar aqui, tinha só 13 anos. Até essa idade, eu tomava banho ali no Menino Deus. Sei lá se era limpa. Mas o fato é que eu tomei muito banho nessa prainha — a Prainha da Conceição.


Janete — A senhora tem fotos do veraneio na Conceição?

Helga — Eu tenho álbuns do veraneio aqui na prainha. Tem até foto do João Antônio Martinez que era da turma do meu marido. A questão é que em um determinado momento a burguesia urbana Porto-alegrense, onde avultavam os alemães, vai querer um lugar de veraneio e descanso. De lazer. O mar (Torres) era muito longe. A Tristeza e a Pedra Redonda tinham até hotéis, que eram de propriedade dos alemães. Eram todos empresários de origem alemã: donos de hotéis, restaurantes, armazéns. E até de transporte coletivo.

Comentários (3)

  • Sergio diz: 14 de fevereiro de 2013

    Excelente esta entrevista. É a história de Porto Alegre sendo resgatada.
    Que pena que não podemos mais aproveitar o Guaíba como antigamente. Se o Guaíba estivesse limpo poderiam ser até promovidas competições de natação em águas abertas aqui em Porto Alegre. Quem sabe até uma travessia entre Porto Alegre e a cidade de Guaíba. Mas, quem sabe um dia…

  • Délcia diz: 14 de fevereiro de 2013

    Fiquei com gostinho de quero mais com esta aula de história.Porto Alegre esta recheada de fatos do passado muito interessantes,que muitas vezes nem damos o valor devido e isto não se aprende na escola… Parabéns Janete por mais esta preciosidade chamada dona Helga.

  • Douglas Leal do Amarante diz: 14 de agosto de 2013

    UAU !
    Sou de Triunfo, cidade histórica, próximo à Porto Alegre. Sou um dos únicos na cidade que se interessa por História e, sinceramente, fiquei fascinado pela entrevista. Claro, não apenas pela entrevista em si, mas por toda a memória que está registrada, em mente, da entrevistada. Espero que um dia eu possa entrevistar a Srª Landgraf de perto.

    Texto Ótimo, Tema Perfeito.

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