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Aqui na Zona Sul

18 de setembro de 2012 2

Confira o texto enviado pelo Blogueiro ZH Zona Sul Jefferson Azevedo Terra:


Foi aqui na zona sul de Porto Alegre que a minha pequena filha Caroline, de 15 meses, falou sua primeira palavra. Ela já tentava falar babá, dadá e auau. Mas, naquele dia, falou algo concreto. Algo profundo mesmo. Algo com início, meio e fim.

Estávamos passando pelo calçadão de Ipanema e reparei que os dois pequenos olhos da Carol brilhavam ao observar a paisagem pela janela do carro. Paramos em um supermercado, ela entrou no carrinho e falamos mais ou menos assim:

— Caroline, tu vais ficar aqui. Ficar aqui.

Ela ouviu, pensou, processou a informação e disse sua primeira palavrinha concreta.

Falou a palavra “aqui”.

E não foi um aqui qualquer. O aqui dela foi suave, açucarado, envergonhado, infantil e angelical.

Achei o máximo!

Senti que aquele “aqui” fazia referência ao lugar. Era como se ela tivesse dito “gostei daqui”, “quero ficar aqui”.

Agora vejo que aqui é uma das palavras mais completas da nossa língua.

Se você estiver na Avenida Guaíba, e alguém lhe perguntar onde fica a Avenida Guaíba? Nesse caso você infla o peito e responde:

- Aqui.

E se você estiver na Avenida Beira Rio e alguém lhe perguntar onde fica a Avenida Edvaldo Pereira Paiva? Você responde prontamente:

-Aqui.

Aqui é muito útil.

Aqui serve para quase tudo.

Alguns bobões chatos dizem que aqui não é uma das palavras mais difíceis da nossa língua. Mas qual o problema? Eu ficaria igualmente impressionado se ela tivesse dito algo como: “a Zona Sul é tudo de bom” ou “três pratos de trigo para três tigres”. Mas nem precisava tanto. O aqui dela já resumiu tudo. Por isso, nossa pequena é econômica nas palavras. Fala somente “aqui” e pronto.

Então, agora é assim: se um dia você passar pela nossa pequena Carol em Ipanema, na Avenida Beira Rio ou em qualquer lugar da Zona Sul, ela pode lhe olhar nos olhos, respirar fundo e falar “aqui”.

O empreendedorismo de Juca Batista

04 de julho de 2012 7

A historiadora e blogueira ZH Zona Sul Janete Rocha Machado fez uma entrevista com Theresa Terra Magalhães, descendente de Juca Batista, e escreveu este texto:

Juca Batista | Foto: Arquivo Pessoal

Na segunda metade do século 19, as terras onde hoje fica o bairro Ipanema faziam parte de uma imensa zona rural de Porto Alegre. Originária da primeira sesmaria doada ainda no século 18, a região sul da Capital vai se constituir em grandes extensões de terras, em cujas fazendas se cultivavam arroz, milho, aipim e frutas, além da criação do gado leiteiro. E isso só era possível devido à irrigação pelo Arroio Capivara, que proporcionava fertilidade à região. Era o arrabalde de uma Porto Alegre bucólica e solitária, margeada pelas águas do Guaíba.
Durante muitos anos, o Arroio Capivara foi a fronteira entre as escassas fazendas e o rio. Entre elas encontrava-se a gleba de João Batista de Magalhães, mais conhecido por Juca Batista, um próspero comerciante e estancieiro de origem portuguesa que empreendeu nas terras deixadas por seu pai, cerca de 80 hectares, um império fundamentado no trabalho e na ajuda ao próximo. Era a vida organizando-se em torno das

estâncias, símbolo do gaúcho e do Estado.
Nascido em 29 de setembro de 1870, Juca Batista soube aproveitar a prodigiosa natureza da região, desenvolvendo a plantação de árvores frutíferas e a criação de gado leiteiro. A extensão de suas terras abrangia desde o Belém Velho até o atual Ipanema. Sua residência ficava nas imediações da avenida que hoje leva seu nome, estrada que, no passado, apesar do chão batido, era a única possibilidade de deslocamento entre o Centro e a Zona Sul. O asfalto viria bem mais tarde, na década de 1930, uma iniciativa do então vereador Flores da Cunha, na época, padrinho de Juca. Também eram limites de suas terras a Lomba do Capitão Alexandre, atualmente conhecida por estrada da Cavalhada, e as terras de Bernardo Dreyer, onde hoje está a Pedra Redonda, o Jardim Isabel e o Morro do Osso.
Durante muitos anos, Juca Batista empreendeu ações em prol da comunidade carente, tanto do seu bairro como dos vizinhos. Deslocando-se de barco pelo rio, fornecia produtos oriundos de sua fazenda a outras regiões da cidade. Em 1896, forneceu as primeiras mudas de árvores frutíferas e verduras aos pioneiros colonos da Vila Nova. Também mantinha, por meio de um trabalho social, algumas instituições de caridade, entre elas a Santa Casa de Misericórdia, o Pão dos Pobres e o Asilo Padre Cacique, desenvolvendo, assim, seu lado filantrópico.
Fundador da primeira casa comercial no bairro, local em que se podia comprar desde o alfinete até alimentos como açúcar e café, Batista doou uma parte de suas terras para a construção do cemitério da Vila Nova e para a Escola Estadual Odila Gay da Fonseca em Ipanema. Atualmente, o nome Juca Batista é lembrado em avenida e linha de ônibus que liga Ipanema ao Centro, uma forma de lembrar pelas realizações e homenagear aquele que foi um dos primeiros empreendedores da região.

Família de Juca Batista | Foto: Arquivo Pessoal

Família de Juca Batista | Foto: Arquivo Pessoal

O decano de Ipanema

26 de abril de 2012 4

O texto abaixo foi enviado pelo blogueiro ZH Zona Sul Luiz Pedro Borgmann:

Encontro o senhor Henrique Sommer Ilha, 82 anos, em sua residência, na Rua Cassino, no bairro Ipanema. Sorriso fácil, me conta todos os detalhes do bairro em que mora quase toda a sua vida. Os personagens do cotidiano, os mais novos, os mais velhos, e também a expectativa da despoluição do Guaíba, prevista para 2014. Ele pergunta:
- Será que vai despoluir mesmo?
Algumas pessoas  mencionadas por ele eu conheci, outras não. Somos contemporâneos, mas, com certeza, ele é um dos mais antigos moradores do bairro. Relatou alguns fatos pitorescos, também escritos por ele próprio em dezembro do ano passado na revista O Minuano, do clube Veleiros do Sul.



Henrique Sommer Ilha, 82 anos | Foto: Arquivo pessoal


“Em 1937, passamos a residir no recém-lançado balneário de Ipanema. Nossa família era de quatro pessoas: meu pai, Paulo, minha mãe, Norma, meu irmão, João, com cinco anos, e eu, Henrique, com sete anos. Imediatamente começamos a aproveitar a praia e os banhos no Guaíba, que contava com águas límpidas e dunas de areia. Nosso pai construiu um barco minúsculo que tinha esqueleto de madeira e revestimento de lona pintada. Foi batizado com o nome de Kanguru. Era muito difícil navegar com ele, pois era muito instável.
Em 1941, aconteceu a grande enchente de Porto Alegre. Andávamos com água pela cintura na Avenida Guaíba e chegávamos de barco até a esquina da Rua Cassino com a Cidreira, imediações de onde hoje se situa a Galeteria Jordani. Quando as águas baixaram, a praia ficou repleta de galhos, animais mortos e também um caíque e uma baleeira, semienterrados na areia. Meu pai comprou o barco e levou-o para casa, sendo pintado e calafetado. Recebeu o nome de Cachorro, isso já em 1942. A baleeira foi reformada e transformada em um robusto veleiro, recebendo o nome de batismo de SOS. O posto policial de Ipanema era encarregado da custódia desse barco, mas como morávamos na mesma rua do posto, fomos encarregados de zelar pelo barco, com o qual navegamos e exploramos também a costa oeste do Guaíba.
Em junho de 1944, no final da II Guerra Mundial, ouvimos um avião passar muito baixo sobre o nosso telhado, e, a seguir, um estrondo vindo do Guaíba. Ao chegar à praia, vislumbramos a cauda do avião, de duplo leme, aparecendo próximo ao morro do Sabiá. Não houve sobreviventes no Lockheed PP-VAG Electra, batizado de Varig Santa Cruz. Morreram a tripulação e oito passageiros.”

O senhor Henrique continua morando em Ipanema, com a mulher, na mesma rua, no mesmo lugar. De boa memória, histórias como essas ele tem muitas mais para contar, mas aí seria necessário um espaço muito maior.


 



O veleiro "SOS" com familiares e vizinhos em Ipanema | Foto: Arquivo pessoal