
Desenho de Hélio Ricardo Alves mostra como era feito o despejo na Ponta do Melo - Foto: Reprodução
No finalzinho do século 19, começou a funcionar em Porto Alegre uma linha férrea que servia aos bairros margeados pelo Guaíba. Também conhecida por Estação Ferroviária do Riacho, porque ficava a beira do Arroio Dilúvio, a linha do trem foi muito importante, pois além de transportar passageiros e cargas, constituía um dos melhores passeios turísticos de Porto Alegre.
Relato interessante sobre essa pequena estrada de ferro foi o de Augusto Meyer, escritor, jornalista e contemporâneo do trem. Em sua obra No Tempo da Flor, citado na Pequena Antologia do Trem, Meyer traz lembranças da ferrovia na década de 20: "A grande animação, no Largo da Tristeza, era o trenzinho das cinco. Ficava a estação ao lado da velha Ponte do Riacho, e parece que ainda estou no Beco do Império, picando o passo, ao ouvir o primeiro apito. Ladeira abaixo, somos alguns retardatários, em cima da hora. Mas o trenzinho, com mais apito e fumaça do que pressa, levará muito tempo a decidir-se, arrastando a sua sina pela Praia de Belas".
Inicialmente, a linha do trem foi utilizada para transportar os cubos malcheirosos provenientes das casas dos arrabaldes que não tinham esgoto. Portanto, tinha uma função essencialmente sanitária. O trajeto percorrido por esse material ia até a chamada Ponta do Asseio ou Ponta do Melo, onde hoje se encontra o Estaleiro Só, no bairro Cristal. Em tempos mais remotos, esse material viajava até outra ponta, a do Dionísio, no bairro Assunção. Dentro dos vagões, iam grandes cilindros, com todo o conteúdo fedorento.
Esses cubos, fornecidos pela Intendência Municipal de Porto Alegre, eram colocados sob a tábua de assento dos banheiros da época para serem usados e, depois de cheios, eram encaminhados até a estação do trem mais próxima. Logo que chegava ao seu destino, o conteúdo dos cubos era prensado e descarregado diretamente no rio. Os mesmos cubos, ou cabungos, que levavam os dejetos, após serem descarregados e limpos com creolina, faziam a viagem de volta.
Conforme Sérgio da Costa Franco, "o asseio público deixou suas marcas nas tradições da cidade. Como Ponta do Asseio ficou popularmente conhecida a Ponta do Melo, como Lomba do Asseio a ladeira que ligava aquela ponta à Avenida Padre Cacique. Cabungos e cabungueiros são tristemente lembrados pelos mais velhos".
* Por Janete da Rocha Machado, Conselho de Blogueiros
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