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O sistema de transplantes de órgãos e o circuito das artes em discussão

04 de junho de 2010 0

Com o projeto Doações do Corpo, a artista e educadora Zenilda Cardozo convida o público a participar de um trabalho artístico que discute e problematiza o sistema de transplantes e o próprio circuito das artes.
Na capa do Diário 2 desta sexta-feira, a gente apresenta o projeto detalhadamente. Por aqui, um vídeo-fragmento de um documentário feito por André Martinez (mesmo diretor do filme sobre Jorge Mautner: Os Quatro Elementos em Si ou o Guru Selvagem e autor do livro Democracia Audiovisual).

A seguir, a entrevista na íntegra com Zenilda. Trechos dela estão no texto do Diário 2 desta sexta-feira

Diário de Santa Maria – Como surgiu o projeto Ações Artísticas Doações do Corpo?
Zenilda Cardozo
– Tenho produzindo trabalhos que problematizam a centralidade dos discursos sobre o corpo na contemporaneidade e, em 2004 comecei a produzir obras sobre o corpo fragmentado – o corpo em pedaços – obras que priorizam a apresentação de uma metáfora do corpo. O programa de ações artísticas Doações do Corpo surgiu a partir da construção dos órgãos do próprio corpo e da necessidade de divulgar esse tipo de trabalho no circuito das artes. Como fazer esse trabalho ‘circular’? A doação desses órgãos foi pensada considerando a problemática órgãos/obras/mercado de arte (incluindo o valor da obra de arte e da artista). O edital que mimetiza os métodos seletivos do circuito das artes foi elaborado como forma de questionamento dos processos seletivos, tanto do circuito das artes como do sistema de transplantes.

Diário – Quando e como foram as duas primeiras edições?
Zenilda –
A primeira ação artística foi realizada em 2009, como parte da metodologia de minha pesquisa de mestrado e foi viabilizada via web através do blog http://doacoesdocorpo.blogspot.com e apresentada em um espaço expositivo (sala Fahrion, Reitoria UFRGS) no período de 24 de novembro a 18 de dezembro de 2009. Foram doados 16 órgãos/obras . Entre as exigências propostas no regulamento estavam a escolha de apenas um dos órgãos/obras e a produção de um texto justificando a necessidade de receptor para o órgão escolhido. Os textos fizeram parte do corpus de análise da pesquisa de mestrado, no intuito de discutir a maneira como os discursos sobre o corpo, que circulam em nossa cultura, especialmente sobre a doação de órgãos e tecidos, produzem formas de pensar e agir sobre o corpo e a saúde e de que forma tais discursos se articulam nas produções dos participantes. A segunda ação (doação do órgão/obra Nódulos linfáticos) foi realizada em 27 de novembro de 2009, durante a abertura da Mostra Internacional Entrelínguas, em Pelotas/RS, realizada em comemoração do ano da França no Brasil, envolvendo artistas de 16 países. Ao se inscreverem, os candidatos foram solicitados a ‘doarem’ palavras sobre a temática. Mais informações sobre esse evento na página  .

Diário – Qual o objetivo da ação?
Zenilda –
Além da problematização dos discursos sobre o corpo na contemporaneidade, pretendo fazer uma reconfiguração de meu próprio corpo doado a partir da montagem de um autorretrato, substituindo o órgão pela foto do(a) receptor(a), formando assim uma outra obra, diferente em linguagem plástica e carga simbólica. Pretende-se constituir um outro espaço do corpo, um corpo transfigurado, remodelado e reapresentado como um autorretrato da artista, sugerindo uma rede abstrata formada pelo fluxo de energia do corpo despedaçado e doado.  

Diário – Como surgiu a idéia de participação das pessoas e como ela funciona exatamente? E especificamente nesta edição com mostra em Santa Maria?
Zenilda –
As ações problematizam o ato de doar, que pressupõe o ato de receber e, para ser viabilizada necessita da participação efetiva do público. Para a mostra em Santa Maria, diferentemente da primeira ação, o público poderá participar tanto via web, como diretamente na Sala Dobradiça.  

Diário – De que forma você selecionará as pessoas? E de que forma usará as fotos delas?
Zenilda –
As fotos dos receptores serão utilizadas na construção do autorretrato da artista, seguindo os itens descritos no regulamento. Os receptores são selecionados de acordo com os itens do edital, considerando a qualidade e a criatividade das argumentações e, como nos editais do circuito das artes, o correto preenchimento da ficha de inscrição, entre outros. Para a seleção durante a primeira ação artística foi constituída uma comissão de seleção formada por três profissionais das áreas da educação, das ciências e das artes. A segunda ação foi realizada através de sorteio, no momento da abertura da Mostra Internacional Entrelínguas. Para a terceira ação (em Santa Maria) a escolha será feita pela artista com o apoio da curadoria da Sala Dobradiça, levando em conta a problemática da escolha.

Diário – Qual seu interesse na pesquisa sobre o corpo?
Zenilda –
Além da centralidade dos discursos contemporâneos sobre o corpo  e sua problematização em diferentes campos de saber (mencionados anteriormente), pode-se dizer que o interesse sobre ele resulta, também, de minha formação acadêmica (em Biologia) e pelo fascínio que a temática envolve.

Diário – Seus trabalhos anteriores seguiam esse enfoque?
Zenilda –
Em minha trajetória artística tenho trabalhado com diferentes abordagens sobre o corpo. Desde as primeiras experiências em desenho e pintura, tenho utilizado elementos que fazem parte de minha formação como professora de ciências, principalmente, aqueles que envolvem investigação anatômica e fisiológica das estruturas internas do corpo, assim como a apropriação das anotações e dos registros gráficos utilizados durante esses processos para a construção do objeto artístico. Também o trabalho desenvolvido na graduação em Desenho e Plástica/ UFSM, o corpo foi problematizado através do uso do fio de cobre (como o fio da vida), do desenho no espaço e da sombra.

Diário – Você tem formação em artes e biologia. Gostaria que contasse um pouco do seu percurso artístico. Por onde começou e por onde passou até chegar a esta fase.
Zenilda –
Trabalhei durante alguns anos como professora de escola pública e na coordenação do ensino de Ciências do município de Tupanciretã/RS. Posteriormente passei a me dedicar às pesquisas em artes plásticas. Vim para Porto Alegre em 2000 e de 2004 a 2008 participei do grupo do Torreão, sob orientação de Jailton Moreira. Minha formação em Biologia e Artes faz parte de minha constituição como sujeito e, desta forma, minha produção plástica e acadêmica sofre influência das duas áreas.

Diário – Por fim, gostaria que comentasse como seu trabalho se coloca dentro da arte contemporânea.
Zenilda –
Podemos perceber a pluralidade e a diversidade de proposições sobre o corpo como objeto de arte na atualidade. Desde a utilização do próprio corpo como objeto de arte (desmaterialização da arte), nos anos 1960, como forma de protesto político e da contracultura (70′s), até a ênfase nas novas tecnologias, o retorno ao objeto artístico e a apresentação de uma metáfora do corpo a partir dos anos 1980/90 – um corpo fragmentado, descarnado, visceral, protético, informático.
Inserindo-se na voga de tensionar o corpo na contemporaneidade, meu trabalho busca manter uma sintonia com as discussões propostas, tanto pelo campo das ciências, como também, pelas vertentes da arte que utilizam o corpo como metáfora. Ao mesmo tempo, as ações artísticas Doações do Corpo são constituídas como um espaço alternativo  – e também por isso, efetivo -, para a arte política, que é uma das tendências da arte contemporânea, no sentido em que criam, não apenas uma forma de existir, enquanto obra de arte (objeto artístico), mas uma maneira de ligar arte/vida, de habitar a própria fronteira entre diferentes saberes, de habitar um espaço, que não é, de modo algum, impermeável – que é o lugar da interdisciplinaridade, da intersecção, da criação. Ao romper com o espaço instituído como o ‘espaço da Arte’, que envolve os editais, as comissões de seleção e os saberes especializados (legitimados e legitimadores), problematizando as ‘verdades’ constituídas sobre essas instituições, estas ações propõem questionamentos sobre qual é o lugar da arte e sobre o próprio conceito de arte.
Caberia ainda dizer que a ação Doações do Corpo, enquanto arte política, demonstrou a capacidade de propor reflexões a partir da perspectiva de fronteira em que está situada, tanto em relação à temática do corpo na contemporaneidade (especificamente o corpo da doação de órgãos), como também reflexões sobre o corpo enquanto obra de arte – uma arte que se instaura na esfera das relações humanas, envolvendo o objeto artístico, o artista e o espectador.

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