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Entrevista com Humberto Gessinger, da Pouca Vogal

18 de junho de 2010 1

No Diário 2 desta sexta-feira, a gente traz trechos de uma entrevista bem bacana com um dos integrantes da Pouca Vogal, que faz show hoje na cidade, no Centro de Eventos do Parque Hotel Morotin. Quem conversou conosco foi Humberto Gessinger, que fez sucesso com os Engenheiros do Hawaii. Ao lado dele está Duca Leindecker, do Cidadão Quem. Abaixo, você confere o bate-papo na íntegra. No fim da entrevista, tem um videoclipe da banda.

Diário de Santa Maria _ O primeiro show da  Vogal fora da Capital foi em Santa Maria. Você tem alguma lembrança dessa apresentação?
Humberto Gessinger
_ Esses shows do início sempre ficam na memória. Apesar de ainda não termos o domínio total do show por ser uma coisa iniciante, por outro lado, tem essa energia boa de não saber muito bem para onde a coisa vai andar. Depois, vai passando o tempo, tu vais ganhando mais domínio e perde um pouco dessa sensação gostosa de estar começando um projeto. Então, lembro de ter tocado aí nesse momento que nós mesmos estávamos conhecendo o projeto e tentando descobrir em que tipo de ambiente poderíamos levá-lo. Depois, começamos a sair, tocar em lugares maiores e passamos a dominar mais a banda. Quando tocamos aí, a gente era como um segundo público, pois também ficávamos meio que assistindo a banda, vendo no que iria dar.

Diário _ Atualmente, o grupo toca com mais frequência, tanto no Rio Grande do Sul como fora. Como está a receptividade fora do Estado?

Gessinger _ Temos saído regularmente e é muito legal. Fora do Estado, temos a oportunidade de tocar em lugares maiores. Fomos há pouco para Brasília, em um espaço supre-grande, passamos por Manaus, no sambódromo, em um festival com outras bandas de formato tradicional, como o Nando Reis e o Barão Vermelho, e funcionou bem. Nesses lugares assim até me sinto mais responsável pelo projeto, já que o foi onde o Engenheiros chegou e o Cidadão não. Quando montamos o projeto a ideia era girar o Brasil inteiro.

Diário _ Você percebe muita diferença dos tempos em que excursionava com o Engenheiros para agora?

Gessinger _ O que eu vejo, que é incrível, é que tem uma molecada que sente saudades de uma época que não viveu. Eu encontro muito isso. Estou há dois anos quase sem fazer show com o Engenheiros e tem uma galera que não assistiu à banda e sente falta. Isso é estranho porque tu vais ficando em uma categoria diferente, que cria uma responsabilidade que nunca pensei que fosse ter. Mas é bacana também, pois ficamos ouvindo esse lance de que música pop é coisa para 15 minutos e tal, mas tua história acaba desdizendo isso, mostrando que é permanente. Eu já estou há 20 anos na estrada e tem um público fiel. É algo que eu confesso que não tinha me preparado.

Diário _ Mesmo? Por quê?
Gessinger _ É coisa meio de veterano. A gente vai vivendo um dia de cada vez, fazendo um disco de cada vez. Quando vê, já se passaram mais de 20 anos, mais de 20 discos e tem uma molecadinha que começou a ouvir há pouco. É uma sensação muito gostosa.

Diário _ Como é encontrar bandas mais jovens, mais atuais? Apesar de o Pouco Vogal ser recente, você e o Duca já têm uma longa trajetória.
Gessinger _ O mais forte na Pouca Vogal é o formato, o lance de ser um duo, de cada um estar tocando vários instrumentos simultaneamente com os pés e com as mãos. Essa para mim é uma diferença tão grande que as outras todas meio que passam batidas. O fato de ser de outra geração ou de que tipo de música os caras estão tocando passa batido. Essa é a grande dificuldade do projeto e ao mesmo tempo o grande barato. Mais do que essas questões de estilo e de geração, o fato de sermos um duo é o mais maluco e que dá um p*** orgulho. O legal foi tentar quebrar o formato tradicional. Para mim, é o centro do projeto. Costumo dizer que mais importante que as canções que estamos tocando, é a forma como as estamos executando. Para qualquer artista com tanto tempo de estrada, se oferecem muitas comodidades, mas a gente foi contra isso. Queríamos começar de novo, literalmente.

Diário _  Com o Engenheiros, você teve a chance de levar a música pop feita no Rio Grande de Sul para fora dele. Como é a questão de alcançar sucesso fora do Estado hoje em dia?
Gessinger _ Esse lance está mais dentro da gente do que fora. Somos o único estado do Brasil em que se discute tão obsessivamente nossa natureza. Não acho que isso seja um bom sinal. Às vezes, o foco se desvia da questão artístico-musical para o lance de se a banda tem ou não mercado fora daqui. Quem tenta buscar isso muito conscientemente acaba sendo prejudicado. Vejo na história do Engenheiros, que tinha muita coisa que dificultava a gente de cruzar as fronteiras. A gente foi uma banda com um filtro muito gaúcho, com quase todas as referências daqui. Teoricamente, seria a banda menos indicada para fazer isso. No fim, essa coisa de o lugar de onde tu és e o tipo de música que tu tocas, tem de ser secundário. O centro de fazer ou não comunicar teu trabalho é a qualidade e a afinidade que tu tens com tuas ideia dentro de ti. Quanto mais tu viajar para dentro de ti, mais chance tu tens de comunicar fora. Aqui, sinto uma certa ansiedade na qual as bandas querem ser produtores e divulgadores de seu trabalho. Acho que isso não é coisa de artista.  O músico deve mergulhar dentro de si, buscar a tensão que tem lá dentro e correr o risco de isso fazer sentido ou não longe daqui. O artista deve se fixar mesmo na sua arte, não na divulgação dela.

Diário _ Com a Pouca Vogal, vocês apresentam canções dos Engenheiros do Hawaii, do Cidadão Quem e composições próprias, certo?
Gessinger _ É. Até agora disponibilizamos esses oito sons no site (www.poucavogal.com.br) e no DVD Pouca Vogal – Ao Vivo Em Porto Alegre. Não escrevemos nada novo. Às vezes, buscamos músicas diferentes de nossas outras bandas para variar o show. A gente quer antes que as pessoas conheçam essas músicas. Por isso, não estamos tentando correr demais. As músicas dos Engenheiros e do Cidadão a gente usa como convite para o universo Pouca Vogal. A gente quer dar tempo para o pessoal sacar qual é a onda antes de começar a fazer girar o repertório.

Diário _ Já podemos dizer que a Pouca Vogal deixou de ser um projeto para se transformar na atual banda de vocês?
Gessinger _ Sem dúvida. Falamos esse lance de projeto com um pouco de receio de soar pretensioso. Mas, desde o início, eu via um futuro legal. Nunca achei que fosse um projetinho para brincar. Sempre acreditei e mergulhei 100% nisso.

Diário _ Recentemente você lançou um livro, o Pra Ser Sincero, que conta a história do Engenheiros. Como foi transcrever essas lembranças para o papel?
Gessinger _ Escrevi tudo de uma vez. Não foi difícil porque eu nunca tive a pretensão de ser um historiador. O que eu conto é algo bem pessoal, do ponto de vista de quem estava no centro do olho do furacão. Costumo brincar que é do ponto de vista do coração, não do cardiologista. Não é uma história analítica e nem acho que quem viveu de perto seja indicado a fazer uma análise fria. Fiz questão de puxar muito mais pela memória do por pesquisas de fato. Acho que, mesmo as coisas que tu esqueces, são interessantes saber porque tu esquecestes, pois a memória tem seu próprio discurso. É uma história bem afetiva.

Diário _ Você costumava registrar, de alguma maneira, situações que rolaram na época dos Enegenheiros?
Gessinger _ Tenho anotações sistemáticas de datas e lugares nos quais estive. Mas as sensações eu tenho todas dentro de mim. Tenho só fatos anotados, mas conto com a memória afetiva.

Diário _ Quando O Papa é Pop saiu, em 1990, foi um boom. O disco repercutiu bastante, músicas tocaram em rádios… Você acredita que no contexto atual seria possível causar todo esse alvoroço no pop nacional?
Gessinger _
Acho que ninguém gravaria um disco como O Papa é Pop, com aquele grau de liberdade. Até acho que o tipo de leitura que ele teve empobrece um pouco o disco, pois ele é bem mais rico do que as poucas músicas que tocaram em rádio. Hoje em dia todo mundo é mais específico e não vejo ninguém trabalhando com liberdade. Está todo mundo preocupado em fazer seu trabalho acontecer. Outra questão são os instrumentos disponíveis. Vejo isso com o Pouco Vogal, que talvez fosse um projeto impossível no tempo das gravadoras e hoje em dia dá supercerto sem depender desse tipo de divulgação. Do ponto de vista de feitura não vejo ninguém pensando daquela forma no rock nacional. Vejo a busca por um discurso menos contundente.

Diário _  As bandas atuais teriam menos “atitude”?

Gessinger _ Muito me pergunto se teria diminuído a qualidade das bandas de hoje, mas duvido. Acredito que cada geração tem o mesmo número de caras legais trabalhando. Muda o ambiente. De repente essa molecada está a fim de falar determinadas coisas sem esquentar muito a cabeça. Não gosto muito de divulgar as gerações que vieram depois do Engenheiros. Sei lá que tipo de pressão são submetidas essas pessoas, o grau de formação que eles tem na cabeça e com o qual tem de lidar. Eu venho de uma geração na qual a música era muito importante. Tinha sentido muito maior do que para um jovem que tem uma oferta muito maior de entretenimento, como hoje em dia.

Diário _ E a questão do álbum, tão comum antigamente, mas que hoje em dia está se perdendo?
Gessinger _
Tenho a impressão que é como se tu comprasse alguns capítulos de um livro. É mais uma novela do que um filme. No álbum, além das canções, havia a importância de porquê ter selecionado aquelas canções, qual motivo daquela ordem. Tinha um contexto alinhavando tudo. Sinto que os grupos que estão na batalha agora ouvem música de uma maneira mais conservadora. As pessoas são mais presas a ouvir denovo o que já escutaram e menos generosas com a coisa da música autoral.  Por incrível que pareça, por mais liberdade que se tenha hoje, ficou tudo meio empastelado.

Diário _ No show, é apenas você e o Duca tocando todos os instrumentos no show?
Gessinger
_ Sim. Esse formato, para mim, é o coração da Pouca Vogal e vai contra a corrente. Não usamos nenhuma trilha pré-gravada. Estamos em busca de reforçar o lado humano e da performance. Com as facilidades tecnológicas, periga se perder um pouco isso, esse lado ofício de tocar mesmo os instrumentos. Não queremos isso. Essa é a experiência central da banda.

Comentários (1)

  • Grings » Arquivo » Os homens-banda do Pouca Vogal diz: 19 de junho de 2010

    [...] e que se concretizou nos últimos anos em função da parada das duas bandas originais. Confira aqui o que Humberto Gessinger disse a Homero Pivotto Jr no blog do [...]

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