15 mai09:04

Safra da tainha começa nesta terça-feira em Santa Catarina

Guto Kuerten, Diário Catarinense

O saragaço começou. A tradicional frase de pescador ecoa nos barracões de pesca artesanal e nos barcos industriais catarinenses. A temporada mais esperada pelos profissionais do mar começa com uma constatação: a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, não é mais a principal fonte das tainhas que chegam ao Estado. Pesquisadores e pescadores confirmam que a migração agora é a partir das baías na Argentina e no Rio da Prata, entre a Argentina e Uruguai.

Conclusões feitas durante projeto pioneiro de estudo da espécie desenvolvido em parceria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Universidade Federal do Rio Grande (Furg/RS) e Instituto de Pesca de Santos apresentam novos resultados. Ricardo Schwingel, um dos pesquisados do Grupo de Estudos Pesqueiros da Univali afirma que nos últimos 12 anos o principal criadouro mudou.

– Durante anos, a lagoa tem tido uma redução na abundância de tainha. Por outro lado, em SC, não se tem observado uma redução na demanda na pesca industrial e artesanal – afirma.

Ele conta que a frota pesqueira industrial tem operado no Sul da cidade de Rio Grande (RS), ou seja, na divisa com o Uruguai.

– Estaríamos explorando recursos migratórios a partir das baías na Argentina e no Rio da Prata. Como os pescadores conseguem pescar no Chuí? Tem então cardumes provenientes do Sul. Na Argentina a pesca é pequena e no Uruguai não tem pesca de cerco na industrial. Lá não existe a procura pela tainha.

>>> O CAMINHO PERCORRIDO

Temporada movimenta mais de 15 mil pessoas no setor artesanal

Conhecido pelo apelido Pão de Milho, um dos mestres de barco mais respeitado no Brasil trabalha há 40 anos no mar, sendo 30 deles dedicados à tainha. Enquanto preparava o barco num cais em Itajaí, comentou a mudança:

– Não concordo que o peixe venha apenas da Lagoa dos Patos e com certeza não é mais a principal fonte. Acompanho a tainha desde o Chuí até Santos e vejo que mais de 80% migra da Argentina e Uruguai.

A tainha é o recurso pesqueiro mais aguardado no ano pelo setor industrial. Para o pescador artesanal é ainda mais relevante. É para ambos o momento de aumentar a renda familiar de forma considerável. São mais de 65 mil trabalhadores indiretos e diretos nos dois setores.

A temporada da tainha é um evento tradicional catarinense. Movimenta um mercado turístico-gastronômico. Nas praias, os arrastões atraem turistas e moradores na ajuda da retirada da rede e dos peixes. Mais de 15 mil pessoas trabalham com o setor artesanal. (colaborou Dagmara Spautz )

O mesmo ritual praticado há 35 anos

Há 35 anos, o pescador João Pereira, 61, repete o mesmo ritual. Quando o frio chega, leva as canoas para mais perto do mar. Carrega as redes, ajeita o barco e espera. Os olhos miúdos se acostumaram a enxergar de longe a chegada dos cardumes de tainha. Quando a água escurece, o pescador sabe que é chegada a hora de trabalhar.

Nesta segunda-feira, a ansiedade tomava conta do galpão onde Pereira e outros 25 homens farão plantão até julho, no canto da Praia do Estaleiro. Feito meninos, mal podem esperar pelo momento de esticar e puxar as redes.

– A pesca da tainha é igual desde o tempo do meu pai, do meu avô. Se a safra for boa, até rende algum dinheiro. Mas o que a gente gosta mesmo é da aventura – conta Pereira.

A melhor puxada de tainha já vista no Estaleiro ocorreu há quase 30 anos, quando 35 toneladas do peixe foram retiradas da água de uma só vez. O cardume, apesar de grande, não chega perto de locais como Florianópolis ou Bombinhas, onde o mar fica coalhado de tainhas em ano de boa safra. Mas Pereira não perde a esperança de que, desta vez, a pesca será boa:

– A água está numa temperatura boa, que traz o peixe para perto – prevê.

Independente da quantia que vier, parte do cardume já tem destino certo: abastecer os pescadores, que preparam, ali mesmo, pratos recheados de sabor no fogão à lenha, que fica dentro do galpão.

Os próximos meses serão de trabalho por ali, mas também de diversão e resgate das raízes.

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